Antes de mais uma informação aos desavisados: o Carnaval de Salvador terminou. O tum-tum-tum e outros sons onomatopaicos similares - alguns de gosto duvidabilíssimo - que por dias fizeram gregos e baianos sacolejarem desvairadamente vielas acima e vielas abaixo, dão lugar a algo que há seis anos consecutivos vem mostrando que percussão e banalização é uma rima muito pobre. Trata-se do Panorama Percussivo Mundial, o Percpan, que de 24 a 27 de março vai reunir, na capital baiana, um elenco nacional e internacional disposto a provocar não só alvoroço como também pedir contemplação à sua arte. O evento tem o patrocínio do Governo da Bahia, através da Secretaria da Cultura/Fundação Cultural, e pela Copene (Companhia Petroquímica do Nordeste S.A.).
Cifras ainda não são reveladas. Nem mesmo há estimativas.‘‘É muito complicado falar disso agora porque o dólar dobrou. Estamos revendo o orçamento. Para isso vou sentar, na próxima semana, com os nossos parceiros’’ - justificou Beth Cayres, idealizadora, produtora e promotora do Percpan. Uma coisa é certa: o evento sai de qualquer jeito. Se a parte financeira ainda requer certo segredo, os planos artísticos já podem ser anunciados aos quatro ventos.
E foi o que fizeram Beth Cayres ao lado dos entusiasmados diretores musicais do Percpan, os compositores Gilberto Gil e Naná Vasconcelos, durante uma entrevista coletiva à imprensa num badalado restaurante localizado no Pelourinho, centro histórico de Salvador, na última segunda-feira. A novidade para a edição deste ano vai ficar por conta da noite de abertura quando seis grupos - cinco brasileiros e um internacional - vão fazer um auê conjunto. Vai ser na Praça Campo Grande, a partir das 19 horas.
A performance conjunta vai receber o nome de, vejam só, ‘‘A Noite dos Tambores Silenciosos’’ - uma adaptação do encontro de maracatus que acontece no Recife - com direito a atores, bailarinos e, claro, músicos. Um espécie de ‘‘ópera ao ar livre’’ que tem a direção de Márcio Meirelles, do Grupo de Teatro Olodum. ‘‘A intenção é que principalmente o Naná os dirija musicalmente no sentido de aproximar as idéias e performances. Ele provavelmente vai dar um mote rítmico com ênfase aos tambores mais graves’’ - explicou Gilberto Gil. ‘‘Penso num senso espiritual por ser uma confraternização de tambores’’ - adianta Naná.
Os demais espetáculos programados para o 6º Percpan vão se realizar no Teatro Castro Alves, com ingressos a R$ 10,00. ‘‘O teatro tem toda a estrutura necessária que permite inclusive diminuir custos’’ - analisa Beth Cayres que espera ver os 1.500 lugares do local ocupados nos dias do evento. Das atrações internacionais, pelo menos dois grandes destaques: Os Tambores do Burundi, da África Central, e o indiano Zakir Hussain e seu grupo que vêm pela primeira vez à América do Sul. Outra provável sensação dever ser também o Silvercloud Singers, grupo formado por descendentes de índios norte-americanos.
Do Brasil, uma das apresentações mais concorridas certamente será a da cantora Maria Bethânia que vai deixar de lado - um pouco só - sua verve dramática e romântica para mostrar a riquíssima produção musical do recôncavo baiano - das chulas ao samba-de-roda. Gilberto Gil promete dar uma palhinha no show da amiga. Porém, ele deve subir ao palco com mais vigor ao lado do Ayabonmbe, grupo formado por haitianos que se exilaram em Miami e que ganhou projeção maior quando, em 94, foi convidado para abrir a turnê do show ‘‘Voodoo Lounge’’, dos Rolling Stones, em 94.
Naná Vasconcelos não poderia ficar de fora. Imagina, logo ele um dos mais incensados percussionistas brasileiros no exterior. A ele coube a tarefa de colocar um pouco de tecnologia ao até então acústico Panorama Percussivo Mundial. Com Cyro Baptista (brasileiro radicado nos Estados Unidos) e o americano Leon Gruenbaun, Naná vai compor o trio ‘‘Techno Suggestion’’.
Com esse sugestivo nome, o trio pretende promover o encontro entre a percussão tradicional e engenhocas eletrônicas. ‘‘Existem diferentes tipos de música e eu gosto de todos. Eu sou aberto - toco com pessoal de teatro, com pessoal de dança, do pop rock, com orquestra... Eu quero é saber sempre mais e para isso é preciso estar aberto e disponível’’ - filosofou.
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Salvador a convite da organização do PercpanReproduçãoMaria Bethânia despe-se da verve romântica e vai mostrar no Percpan a produção musical do recôncavo baiano, de chulas a sambas-de-rodaAntônio Mariano Júnior

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