Salto vital
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de novembro de 2015
Geraldo Bessa<br> TV Press 
Felipe Camargo encara cada novo personagem como um "salto no abismo". Mas, para viver o Bernardo nas duas fases de "Além do Tempo", ele admite que o "mergulho" foi maior. Antes um desmemoriado e agora um escritor e documentarista, o papel na trama de Elizabeth Jhin é um dos mais difíceis da carreira do ator, que completa 30 anos de televisão em 2016. "São bem complexos individualmente. Trabalhei muito o gestual e fiz uma atuação mais comedida na primeira parte da novela. Na fase atual, já consigo ter o personagem mais próximo, mas me dediquei para criar o estofo dele, que é um cara intelectual e bem articulado. A experiência de ter dois papéis diferentes e complementares em um mesmo projeto é enriquecedora", avalia.
Aos 55 anos, Felipe evidencia com muito trabalho e bom humor que deixou os "fantasmas" para trás. Depois de estrear como protagonista em "Anos Dourados", de 1986, o ator experimentou de forma intensa os altos e baixos de uma carreira cercada de alguns escândalos de teor pessoal.
Com passagens pela Band e Manchete, foi na Globo que ele desenvolveu sua relação com a tevê. Depois de papéis de destaque em novelas como "Mandala" e "Despedida de Solteiro", acabou levando os problemas de sua relação com a também atriz Vera Fischer para os bastidores de "Pátria Minha", de 1994. Ele só retornou à Globo em 1998 para viver um pequeno papel em "Corpo Dourado".
Depois de outras participações de menor repercussão, a "virada" de Felipe ocorreu em 2009, ao protagonizar a série "Som & Fúria", de Fernando Meirelles. "Acho que foi onde viram que eu continuava competente para papéis um pouco mais complexos. Foi uma oportunidade única", analisa o ator, que, a partir de então, se reconectou com os estúdios e vem acumulando personagens importantes em tramas como "Cordel Encantado" e "Sangue Bom".
Na primeira fase de "Além do Tempo", seu personagem era extremamente misterioso e calado. Na segunda parte da novela, Bernardo surge como um sujeito bem-sucedido e com ares de galã. Como foi esse processo de preparações tão antagônicas?
Foi ao mesmo tempo estranho e divertido. É curioso você passar por todas as nuances de um personagem e ele, simplesmente, se renovar, virar outro, mas com resquícios do que veio antes. Eu nunca passei nem perto de um trabalho como "Além do Tempo". É uma proposta arrojada não só aos olhos do público, mas para quem faz. Eu pensei primeiro no Bernardo da primeira fase, ele tem um desenho dramático muito mais forte e intenso do que o da fase atual. O Bernardo de agora é mais palatável, pode ser feito com intuição e atenção ao texto.
O que mais o atrai na versão contemporânea do personagem?
Ele voltou meio que "por cima", como um premiado escritor e produtor de documentários que, por conta de uma pesquisa sobre vinhos, acaba indo parar em Bellarosa. O mais interessante é que um cara que era desmemoriado em outra vida volta agora com a preocupação de documentar os acontecimentos. Esse elo com o passado é muito legal. Falando pelo elenco, a gente demorou a saber como seria essa "nova" novela. Foi como se tudo tivesse mudado da noite para o dia. Terminei as gravações da primeira fase e no outro dia cortei o cabelo e experimentei o figurino novo. Achei esse mistério em relação ao resto da história muito genial por parte da autora.
Por quê?
Acho que, dessa forma, a Elizabeth conseguiu fazer com que o elenco não caísse na armadilha que é saber o resto da história. Assim, as atuações ficaram mais conectadas aos acontecimentos do momento e não ao que poderia acontecer com a morte de todos e a passagem de 150 anos. Se eu já soubesse de tudo desde o início, poderia ter feito a primeira parte do papel de forma condicionada e acho que isso empobreceria o resultado.
Antes de "Além do Tempo", você teve personagens com abordagens espíritas em "Amor Eterno Amor" e "Alma Gêmea". A preparação para esses trabalhos alterou ou intensificou seu jeito de encarar temas como a reencarnação, por exemplo?
Acredito no espiritismo. Acho e é um "achismo" mesmo que não viemos do absolutamente nada. Acho que existem outras vidas que são importantes para o ser humano evoluir. As coisas não são tão exatas e o universo é infinito para todos os lados. A vida, para mim, é realmente uma passagem. Eu só não sei para onde (risos).
"Além do Tempo" é seu sexto trabalho de destaque na Globo depois de "Som & Fúria", minissérie que reatou seus laços com a televisão. Como você avalia sua carreira depois dessa retomada?
Eu não poderia estar mais feliz. A gente erra e acerta muito na vida. Mas chega uma hora em que é bom colocar a cabeça no lugar e manter uma linha constante de trabalho e aprendizado. Estou nesse caminho, trabalhando com diversos núcleos e estou reprisando parcerias e revendo amigos que foram e são importantes dentro da minha trajetória. Quando estreei, em 1986, nunca poderia imaginar que me confiariam personagens tão intensos, difíceis e revigorantes como os que venho fazendo. Aos 55 anos, estou bem satisfeito com os rumos da minha vida.
Felipe Camargo aprendeu de forma dura como funcionam as engrenagens da televisão. O sucesso repentino a bordo do posto de protagonista de "Anos Dourados" o fez "perder" um pouco a realidade. Algo que, aos 26 anos, ele assume que não soube administrar. "Eu era muito imaturo. Um certo deslumbramento, ligado a uma vida pessoal com alguns excessos, e nenhuma base sobre como funcionava essa indústria moldaram os primeiros anos da minha carreira. Mas tudo aconteceu da forma que deveria ter sido", analisa.
Depois de alguns problemas, Felipe acabou marcando presença bissexta na tevê entre a metade dos anos 1990 e início dos anos 2000. Mas ele não parou. Investiu no teatro e em uma carreira no cinema que perdura até hoje. "As pessoas acham que eu fiquei um longo tempo sem trabalhar, mas não foi assim. Estava apenas um pouco distante da tevê. Precisava de um tempo para respirar e voltar renovado. E foi isso o que aconteceu", valoriza. (G.B.)


