Salman Rushdie faz leitura dramática de seu novo livro nos EUA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de abril de 1999
Por Carlos Haag Enviado especial 
Nova York, 14 (AE) - Seguranças posicionados como jogadores de futebol em frente de uma linha de defesa de falta cercavam o palco do Cooper Union Building, onde o escritor Salman Rushdie leu, ontem (13), para uma multidão, trechos de "O Chão a Seus Pés", para o lançamento quase mundial desse seu novo livro (França e Brasil - onde será editado pela Companhia das Letras - ficaram para trás).
Muito barulho por nada, pois fundamentalistas enfurecidos não apareceram para cumprir a fatwa, a pena de morte imposta ao romancista em 1989 pelo aiatolá iraniano Khomeini, e faturar US$ 2,8 milhões. Tampouco vieram as celebridades esperadas (a lista incluía Woody Allen, Jeremy Irons, Mick Jagger, etc.). Eles fizeram falta ao evento, que ficou ainda mais insosso com a "correção política" (a tara ianque) dos presentes, que não ousaram tocar no assunto da ameaça de Teerã na rodada de perguntas abertas que se seguiu à leitura dramática (sim, isso mesmo: Rushdie interpretou cada personagem com maestria).
"Estou contente porque, finalmente, as pessoas voltaram a pensar em mim exclusivamente como um escritor e não um condenado à morte; também é bom participar de um evento anunciado com antecedência, ao qual as pessoas possam comparecer com calma", disse o autor de "Os Versos Satânicos" à reportagem. Suas palavras foram saudadas pelo único vip literário conhecido presente, o também escritor Paul Auster. "É ótimo que Rushdie possa estar conosco neste dia, defendendo a liberdade e reforçando, com sua coragem, o poder das palavras", afirmou. "Mas é preciso lembrar que a fatwa ainda não está encerrada e é preciso muita cautela".
Auster, um admirador de longa data do romancista britânico, elogiou o novo livro do colega. "Adorei o assunto que ele escolheu e me encantei com a energia de sua escrita, assim como a sua visão alternativa da história, pondo em xeque muitos dos conceitos de literatura realista", analisou. Esconderijo - A escolha do lugar para o lançamento de "O Chão a Seus Pés" não foi casual. "Há alguns anos, quando estava escondido em Nova York, foi nessa região, perto do Village, que me escondi, num pequeno quarto que ficava em cima de uma loja de produtos naturais", conta. "Um dia, após meses me encontrando com a minha vizinha de baixo, sem trocar palavra com ela, resolvi quebrar o gelo, apenas para ouvir: Cara, o diálogo está morto nesta nossa sociedade; ela me serviu de inspiração para o livro", completa. "Há mesmo várias passagens que ocorrem a poucos metros de onde estamos agora".
O velho prédio na Cooper Square foi cercado por uma multidão de curiosos em ver o escritor. Poucos conseguiram um ingresso para entrar. Os que tiveram sorte, depois de ser revistados por agentes de segurança, viram um Rushdie bem-humorado. Quando um admirador o chamou de RushDIE (morrer, em inglês), respondeu: "Certamente que não". "Nós, indianos, damos muito valor aos nomes; o meu, por exemplo, quer dizer pacífico e não estou brincando", avisou.
Também foi divertido ouvi-lo esforçando-se para falar a infinita série de nomes hispânicos do início do livro, cuja ação se passa no México. "E olha que, além de pesquisas, eu estive lá para ver de perto; fiquei impressionado como você vê uma obra de arte, diz que ela é bela apenas para ouvir alguém contando que servia para algum sacrifício, como arrancar fígados ou coisas assim", brinca. "São criaturas apaixonadas".
Como, aliás, considera os brasileiros. "Em especial pelo futebol: que coisa incrível os garotos pobres do Brasil chutando latas na rua já com essa paixão pelo esporte", acredita. De que ele é algo como um analista. "É uma grande forma de expressão da classe trabalhadora", filosofa.
Rushdie acaba de escrever para a revista "New Yorker" um artigo em que tenta explicar a arte da bola para os americanos. "Será que eles conseguirão entender, desta vez?" Pouco antes de encerrar, o ápice de emoção da noite: uma daquelas americanas com cara angelical de serial killer, vestidinho rosa e chapéu na cabeça se aproximou de Rushdie com algo nas mãos. Os seguranças quase se atiraram sobre a pobre, que, sorriso nos lábios, entregou ao romancista um buquê de flores. Por pouco ela não foi ao chão a seus pés.


