Salles e Noll debatem clássico dos 80
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sábado, 14 de agosto de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 15 (AE) - Há algo de Joseph Losey em "Nunca Fomos tão Felizes". A afirmação surpreende o diretor Murilo Salles e o escritor João Gilberto Noll, autor do conto "Alguma Coisa Urgentemente", do livro "O Cego e a Dançarina", em que o filme é baseado. Salles e Noll estarão amanhã à noite no Espaço Unibanco, em São Paulo. para a exibição do filme, que será seguida de debate intermediado pelo crítico José Geraldo Couto, na série de encontros "Cinema e Literatura".
"Nunca Fomos tão Felizes" é um dos melhores filmes brasileiros dos anos 80. Rodado em 1982, estreou em 1984. A influência de Losey está lá: o apartamento semideserto, os movimentos ritualísticos de câmera, as relações asfixiantes entre pai e filho, tudo aproxima o filme de Salles de "Cerimônia Secreta". Mas Salles não pensava em Losey, durante a rodagem. "Gosto de alguns filmes dele, mas nunca foi um dos meus queridinhos", diz o diretor, que admite dever mais ao Wim Wenders de "Alice nas Cidades" e "No Decurso do Tempo".
Um dos maiores diretores de fotografia da história do cinema brasileiro, Salles queria ser diretor. "Acho que a vida toda me preparei para isso, ser fotógrafo foi um acidente, um belo acidente", ele resume. Um dia ganhou de presente da amiga Glácia Camargos o livro de contos de Noll. Leu-o de um jato. Ligou para a Glácia, produtora de cinema, pedindo que armasse um encontro dele com Noll. Era tudo que Salles queria fazer no cinema.
Chega Noll, um gaúcho arredio e caladão. Ouve Salles e diz que não pode escrever um roteiro original, como o cineasta queria, porque está comprometido com o projeto de seu novo livro. Mas sugere que Salles volte ao primeiro conto do livro. Tudo que ele diz que quer fazer está em "Alguma Coisa Urgentemente".
Noll assume que faz uma literatura do atordoamento, como já foi rotulada. Salles destaca o que o apaixonou: "Foi a urgência, a asfixia." Amanhã, eles vão lembrar tudo isso na conversa com o público e ainda falar sobre a relação entre literatura e cinema, que é, afinal, o tema do encontro.
O escritor admite que já foi muito mais cinéfilo. Está cansado da mesmice de Hollywood. Mas continua fascinado pelos problemas da escrita, na literatura como no cinema. Considera estimulante a mistura de estilo documental e ficção de Robert Altman. Salles admite que está numa fase de muita preocupação pela dramaturgia do cinema. Comenta que a dramaturgia costuma ser associada à teatralidade, mas também existe uma dramaturgia dos filmes.
Como contar histórias? Apesar da origem como fotógrafo - e de ser atraído pela imagem como símbolo, a imagem como ícone em si mesma -, ele se assume como um contador de histórias. Mesmo que não seja um projeto consciente, os filmes de Salles refletem diferentes momentos da história do País: a esquerda e a militância política em "Nunca Fomos tão Felizes", a corrupção política e a violência policial em "Faca de Dois Gumes", as desigualdades sociais, o morro que invade a mansão dos grã-finos em "Assim Nascem os Anjos". Um cinema comprometido com a cidadania e a arte de narrar, o de Murilo Salles. Bons temas para uma discussão como a desta noite.
Serviço - "Cinema e Literatura". Amanhã, às 20 horas, exibição de Nunca Fomos tão Felizes, de Murilo Salles, com Cláudio Marzo. Em seguida, debate com o cineasta Murilo Salles, o escritor João Gilberto Noll e o jornalista José Geraldo Couto. Grátis (convites devem ser retirados uma hora antes). Espaço Unibanco 3. Rua Augusta, 1.475, em São Paulo tel. (11) 288-6780.


