Salaíde costa lança CD na França
Cantora dribla a crise musical brasileira e a falta de espaço na mídia para atingir novos mercados
Bela PagliosaAlaíde Costa: sucesso de show em Kopenhagen deveu-se, segundo ela, ao bom gosto musical dos dinamarqueses
Zeca Corrêa Leite
Sempre que se fala da sina do artista brasileiro, um dos problemas mais citados é a falta de espaço nas gravadoras e na mídia, seja ela qual for. Alaíde Costa está nesse grupo. A cantora, que estava no primeiro momento da bossa nova, e continua na ativa 40 anos depois, diz com simplicidade e delicadeza tão caracteristicamente suas, que até as apresentações nos teatros e clubes têm sido bastante espaçadas. Televisão nem se cogita nestes tempos.
Esse descaso não lhe tira o humor. A cantora afirma estar feliz, especialmente porque acaba de ser lançado em Paris um disco seu, inédito no Brasil. Ele é o resultado de uma fita demo, produzida graças à força dada por músicos brasileiros do grupo Les Etoilles e do cantor Zé Luiz Mazziotti, anos atrás, quando este ainda morava na França.
Na época Tom Jobim compôs Falando de Amor, prontamente registrada por Alaíde. Esta faixa será o título do disco, que deverá ser distribuído dentro de mais algumas semanas no Brasil. Virá com Amor é Outra Liberdade, de Sueli Costa, Amoroso, chorinho de Garoto com letra de Luiz Bittencourt; Tudo se Transformou, de Paulinho da Viola, Contradição, de Elton Medeiros e Paulo Cesar Pinheiro.
Por aí se vê que nem tudo está perdido. Seu último disco saiu há cerca de três anos, quando gravou para a Movieplay um trabalho desenvolvido junto com o pianista João Carlos Assis Brasil. Assinou um contrato apenas para esse disco. Não fui contratada pela gravadora, deixa claro.
Alaíde não vê com muito otimismo o que está aparecendo de novos valores na música. Os realmente bons são raros; o que existe é apelação mesmo. Não dá para engolir, reclama. Pelo que eu sei, se você resolver cantar e tiver dinheiro para investir, vai a uma gravadora e ela lança. Aí você faz sucesso, mesmo sem saber cantar. Isso é muito triste.
Diz a artista que os espaços estão cada vez menores para quem quer fazer boa música. Aqueles que têm força para efetuar alguma mudança estão na sua e não se envolvem. O máximo que fazem é proteger os amigos, ou seja, meia dúzia de medalhões de uma restrita panela. Fecha-se o círculo vicioso que em nada colabora para aumentar a lista dos reais valores da nossa música.
Uma indagação: se a bossa surgisse em nossos dias, ela vingaria? Alaíde duvida, mesmo considerando-se que o movimento foi muito combatido à época de seu nascimento. Apesar das vozes contrárias a ele, ainda assim havia espaço para a diversidade. Hoje há um afunilamento, tem muito rebolado, muito oba-oba. Não sei se vingaria.
E o Brasil ouve Tom Jobim? Não tanto como é citado, afirma a cantora. Alaíde Costa afirma conhecer jovens que não fazem idéia de quem seja o maior compositor popular do País. Não os culpo; culpo a mídia que se nega a apresentá-lo para as novas gerações. Assim como Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi... Tem muita gente jovem que não sabe quem são esses grandes músicos e poetas.
Pois bem, se o território inexiste em sua terra, os alentos surgem fora da fronteira. Ano passado Alaíde esteve em Kopenhagen, na Dinamarca, num festival de música popular brasileira. A platéia era constituída por pessoas que nem sabiam de minha existência, e o concerto foi dos melhores. Uma crítica divulgada num dos jornais, comprovou o sucesso da noite.
Fiquei muito feliz, mesmo porque fui lá e cantei o que normalmente canto aqui. Não fiz concessões, orgulha-se. Razão desse êxito? Os dinamarqueses são muito bem educados em música, responde.





