São Paulo, 08 (AE) - Já a estão comparando à Royal Concertgebow, de Amsterdã, Holanda, uma das mais suntuosas salas de concerto do mundo. Será inaugurada amanhã (09) à noite, com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso, a Sala Júlio Prestes, na região da Luz, em São Paulo. O concerto é da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, regida por John Neschling, que escolheu - não por acaso - a "Ressurreição", de Gustav Mahler, para a noite de gala. A "ressurreição" da Júlio Prestes consumiu R$ 44 milhões e sua manutenção (assim como a da Orquestra Sinfônica do Estado e a programação) custará R$ 18 milhões anuais ao Estado.
O espectador que for à sala nos próximos dias (amanhã é só para convidados) vai deparar-se - além de um visual moderníssimo da sala - com inovações espantosas. Uma delas, por exemplo, é o ar-condicionado do teatro, que tem dois sistemas independentes, computadorizados, que têm a capacidade de jogar duas temperaturas diferentes, uma para a platéia e outra para o palco. Toda a estrutura neoclássica da sala está agora adornada por uma madeira clara, distribuída em blocos no teto e nos camarotes, além das poltronas. Sob o piso, foi distribuído um produto chamado neoprene, que evita possíveis oscilações com a passagem dos trens, a apenas 100 metros dali.
Os blocos de madeira no teto são móveis e se adaptam à acústica do local conforme o tipo de música que for executada. Pesa 150 toneladas e, para colocar tudo aquilo lá em cima, os engenheiros tiveram de reforçar todas as colunas da edificação. A reforma da abandonada Estação Júlio Prestes é uma espécie de outdoor luminoso da política cultural do governo de São Paulo e também do governo federal, já que sua restauração e revitalização exigiram esforços conjuntos e provavelmente não terminam com a inauguração. Parte dos R$ 44 milhões do custo da sala foi captada por meio da Lei Rouanet, federal, com patrocínios de empresas como o Banespa, Nossa Caixa, Telefonica, Eletropaulo e Imprensa Oficial do Estado.
O governo estadual agora está empenhado no tombamento da Estação Júlio Prestes pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), já que ela está tombada apenas pelo órgão estadual, o Condephaat. A estação foi construída entre 1926 e 1938 para ser a sede e o ponto de partida da Estrada de Ferro Sorocabana, companhia criada em 1875 pelo baronato do café. Tem 19 mil metros quadrados, no total. Com a crise do café
a estação começou um processo de abandono gradativo. "Ela tem um significado histórico muito grande e é uma referência pública da população de São Paulo", diz o secretário de Estado da Cultura, Marcos Mendonça.
Fica incrustada numa das regiões que já foi uma das mais ricas de São Paulo, entre os Campos Elísios e o Jardim da Luz. Parte do projeto é tombar outros 65 casarões dos arredores - única forma de recuperar a área e torná-la efetivamente frequentável. Mas a idéia da sala de concertos também foi adiante pelo esforço e insistência do maestro John Neschling, o titular da Orquestra Sinfônica do Estado. Neschling reclamava muito das condições de ensaio da orquestra. "Uma orquestra precisa de tempo para achar sua sonoridade", diz o maestro.
No Memorial, ele afirma, foram seis meses tentando achar uma acústica condizente. Depois, veio o Teatro São Pedro (outra das grandes obras do governo Covas), que Neschling achou bom, mas para música de câmara, não para uma sinfônica. Ainda assim, Neschling sempre foi melhor servido do que seu antecessor na sinfônica, o maestro Eleazar de Carvalho. Nos seus últimos tempos, a orquestra ensaiava na escola Caetano de Campos e o horário dos ensaios era decidido pela diretora da instituição. A inauguração da Sala Júlio Prestes terá, além dos políticos, alguns observadores atentos. Entre eles, Russel Johnson, o diretor-técnico da Artec, empresa que tratou da acústica do local, modelo internacional. E também especialistas no ramo, como o presidente do Conselho de Patronos do Metropolitan Opera House, de Nova York.

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