Saindo do limbo
DivulgaçãoMarcos
Valle:
sucesso
lá fora
sem
reconhecimento
por aqui
Rodrigo Teixeira
Cult Press
Marcos Valle estava em silêncio há 12 anos. Apesar disso, alguns clássicos que compôs nas décadas de 60 e 70, como Samba de Verão, Eu Preciso Aprender a Ser Só e O Grilo, voltaram a fazer barulho nos Estados Unidos, Japão e em vários países da Europa. O sucesso inesperado deu novo ânimo ao compositor. Valle resolveu gravar um CD com músicas inéditas e finaliza um songbook, produzido por Almir Chediak, que chega ao mercado em novembro. O novo disco abre um novo mercado para a bossa nova e considero o songbook um reconhecimento do meu trabalho, garante o músico de 54 anos.
Em 1995, o compositor de músicas antológicas da MPB, como Viola Enluarada, descobriu com surpresa que suas músicas faziam sucesso desde 1992 no glamouroso circuito londrino de clubes noturnos. Ao receber uma ligação do produtor e DJ inglês Joe Davis para realizar quatro shows na badalada casa de espetáculos Jazz Café, o músico não acreditou. Mais surpreso fiquei ao saber que já haviam saído duas coletâneas do meu trabalho na Inglaterra, lembra Marcos.
Mentor de uma bossa nova mais pop desde da década de 70, época em que misturou bossa com funk junto ao cantor e compositor americano Leon Ware, o músico brasileiro adicionou no CD Nova Bossa Nova grooves de bateria eletrônica e levadas típicas da música techno. Para realizar o trabalho, Valle contou com a colaboração do DJ inglês Roc Hunter e do produtor Joe Davis. Os dois bolaram diversas variações rítmicas para o brasileiro usar como base para compor. A gravação do novo disco começou em 1996, em Londres, e terminou o ano passado, no Rio. Mais precisamente na casa de Valle. Gravei num estúdio móvel com a ajuda do Roc e o Joe. Foi ótimo para criar com tranquilidade e ficar livre das pressões de um estúdio convencional, acredita o compositor.
A turnê que Marcos Valle fez entre maio e junho deste ano na Inglaterra, Itália, Suécia, Dinamarca, Holanda e Japão, confirmou o sucesso que o músico brasileiro faz no exterior. O público lotou os shows e a crítica chegou a dizer que eu era o sucessor de João Gilberto, orgulha-se. Agora, o compositor aguarda a reação do público brasileiro. Essa mistura com dance pode abrir um mercado e é uma forma de dar continuidade à bossa nova, sugere o músico.
Para ele, o fato de grupos como Smoke City, Everything But The Girl e Massive Attack lançarem recentes discos com fusões da bossa com a dance music é a oportunidade de uma nova geração conhecer a bossa tradicional. A pista de dança é o lugar para tomar contato com este novo estilo, afirma Marcos. A idéia de reciclar o movimento conhecido pelo violão de João Gilberto e as harmonias de Tom Jobim era o objetivo de Marcos Valle em 1963, quando iniciou a carreira. Mas só agora a tecnologia possibilitou experiências na base rítmica da bossa, explica.
A boa recepção que Nova Bossa Nova conseguiu no exterior faz Marcos Valle planejar morar fora do país. Mas a vontade de voltar a fazer sucesso no Brasil deixa o músico em dúvida. Gostaria de ver meu disco bem-aceito aqui antes, confessa. Com 22 discos na carreira, o compositor lembra que em 1986, quando lançou Tempo da Gente, estava totalmente desmotivado. As gravadoras queriam imediatismo nas vendas. Hoje já é diferente, compara o cantor. Já o fato do Paralamas do Sucesso ter gravado Capitão da Indústria, em 1996, no Nove Luas, e o Cidade Negra incluir no novo disco a canção Rio Para o Mar enche Marcos Valle de orgulho. Sempre quis me aproximar das bandas dos anos 80 e 90. Meu negócio é circular entre estilos diferentes, garante o compositor.
É exatamente essa versatilidade que vai ficar preto no branco quando for lançado o songbook com a obra do compositor. O livro com as partituras das músicas vai vir acompanhado por dois CDs recheados por artistas consagrados, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. Todos reinterpretando os sucessos que europeus, americanos e japoneses trataram de resgatar.





