Saiba por que o isolamento do coronavírus pode não render joias da literatura


WALTER PORTO
WALTER PORTO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O escritor Milton Hatoum se angustia no trabalho entre as quatro paredes de sua casa, com as janelas abertas que dão para uma cidade fechada. Amanhece e anoitece num silêncio que ele nunca viu em São Paulo. E seu ofício fica impregnado de uma certa tensão.

"Antes nossa reclusão era a solidão que faz parte do hábito de escrever", comenta ele. "Mas agora ela é compulsória."



Hatoum pôde notar sua sensibilidade mudando durante a quarentena imposta pelo coronavírus. Cenas do livro que está escrevendo, a parte final da trilogia que começou com "A Noite da Espera", ficaram mais tensionadas. Reflexo de uma recém-adquirida ansiedade da tragédia.

"Um dos grandes temas da literatura sempre foi a morte. O que acontece agora é que essa iminência do trágico não é mais uma alegoria, já não pertence mais à abstração. A ameaça é real e palpável", afirma o autor de "Dois Irmãos" e "Cinzas do Norte".

Ele lembra aqueles que, para ele, são "os grandes escritores do Ocidente", que conviveram a vida toda com o tormento do fim. Primeiro, o tuberculoso poeta Manuel Bandeira. Então, Marcel Proust, que era asmático e em determinada altura se afastou do convívio social, e Franz Kafka, que, também com tuberculose, "escreveu sua obra fabulosa assombrado pela morte".

É provável que a inquietação de Hatoum se estenda a quase todos aqueles que têm como ofício escrever num Brasil cerrado pelo medo do contágio e pela incerteza de futuro, isolados em seus interiores como se habitassem uma tela de Edward Hopper.

Pode parecer que a pandemia oferece matéria-prima de sobra para arte de grande qualidade, mas o processo criativo não é tão simples quanto gostaríamos. Muitas vezes é errático.

A crise acendeu em Noemi Jaffe, por exemplo, o impulso de escrever. Começou um diário sobre a vida em quarentena, mas não só. "Recentemente, eu perdi minha mãe", conta. "E praticamente escrevi um livro sobre ela neste período."

"Quando eu escrevo, alivio os sintomas depressivos. Sinto que transformo a minha raiva e a minha tristeza", conta ela. "Não gosto do termo válvula de escape, e sim válvula de transformação."

Alinhado à ideia de escrita como pulsão, Joca Reiners Terron afirma estar certo de que surgirá um dilúvio de relatos sobre a quarentena -e, de fato, já é possível encontrar um punhado online.

"O escritor é um especialista em confinamento. Pode prestar consultoria em como viver trancado e não enlouquecer", diz. "Ou como enlouquecer e transformar isso em arte."

Enquanto Jaffe é otimista em relação à qualidade dessa produção --"ninguém nunca passou pela situação que a gente está passando, e isso certamente vai produzir obras diferentes"--, Terron diz que, como todo mundo de classe média está vivendo algo parecido, é improvável que o resultado literário seja digno de nota, a menos que parta de uma situação excepcional.

Além de tudo, grassam por aí comparações com outras quarentenas míticas que jogam o sarrafo tão lá no alto que ficam no terreno do anedótico -coisas como "Shakespeare escreveu obras-primas enquanto estava recluso por causa de uma epidemia".

É verdade que a primeira década do século 17 viu tanto surtos de peste bubônica na Inglaterra quanto a produção de algumas das principais peças do bardo -"Macbeth", "Rei Lear"-, mas a analogia sofre de anacronismo.

"É impressionante mesmo pensar na capacidade de criação que esses autores tiveram nas circunstâncias de uma peste, mas na verdade isso devia ser pra eles um fato corriqueiro", argumenta Sandra Vasconcelos, professora titular de literatura inglesa e comparada da Universidade de São Paulo.

Segundo ela, pelo fato de a medicina ser menos avançada e a expectativa de vida, bem mais baixa, autores de séculos passados talvez não vissem a disseminação de uma peste como algo tão catastrófico quanto nós do século 21. "A sensação que eu tenho é que a convivência com a morte era muito mais próxima. E tinham que criar mesmo nessas circunstâncias."

Um indício de que a abordagem dos antigos europeus de uma situação de epidemia era distinta se revela no registro do funcionário público Samuel Pepys, que deixou um diário detalhado de sua vida durante a peste de 1665 -o texto é hoje considerado uma obra de referência.

Longe de ser um relato de confinamento, o diário de Pepys narra suas perambulações por uma Londres repleta de infectados -cerca de um quarto da população da cidade morreria em decorrência daquele surto, também documentado anos depois por Daniel Defoe em "Um Diário do Ano da Peste".

"E no caso do Shakespeare é ainda mais complicado [afirmar que ele escreveu suas obras em isolamento] porque há muitos buracos na biografia dele", acrescenta Vasconcelos.

Fernanda Medeiros, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora da obra de Shakespeare, assina embaixo e lembra que é possível afirmar, sim, que durante o fechamento dos teatros por causa de um surto diferente da doença, em 1593, o dramaturgo se dedicou a escrever poemas narrativos para leitura, entre eles "Vênus e Adonis" e "A Violação de Lucrécia", em vez de peças.

Além disso, não é exatamente justo exigir que escritores de hoje sejam Shakespeare, Proust ou Bandeira -ainda mais numa situação de tamanha pressão como a que estamos agora. "É um peso que a gente não pode colocar em cima de artista nenhum", aponta Vasconcelos, da USP.

Noemi Jaffe afirma que esse tipo de comparação é contaminado por um sugestionamento, ou seja, por um desejo de que aquele caso específico de enorme sucesso seja representativo. "Qualquer período pode nos levar a algum exemplo, como: Dante escreveu 'A Divina Comédia' no exílio, então o exílio é uma boa ocasião pra escrever."

A condição de isolamento físico, ainda que possa forçar alguma concentração, também pode ter outros efeitos, como a paralisia devido ao pânico gerado por uma pandemia global ou a dispersão, já que em 2020 nada impede que o artista continue a ser bombardeado por notícias e mensagens virtuais, ainda que privado do convívio social.

E isso, sozinho, já ataca a criatividade, como argumenta Terron. "A gente está impedido de ouvir a voz do outro, e todo trabalho literário essencialmente se faz com essa voz. Estamos trancados dentro da nossa própria imaginação."

Imaginar não deixa de ser uma saída digna nesses dias de confinamento. Milton Hatoum lembra "As Mil e Uma Noites", em que Sherazade, presa, aproveita o que sobra do seu tempo para inventar. Narrar contra a morte.

E cita versos de Murilo Mendes que têm perdurado em sua cabeça nestes tempos. "Para a catástrofe, em busca/ Da sobrevivência, nascemos."

Leia trechos do diário de Samuel Pepys durante a peste de 1665, traduzidos pela professora Sandra Nascimento

15 de agosto

Levantei-me por volta das quatro e caminhei até Greenwich; passei na casa do Capitão Cocke, ele estava na cama, em seu quarto, onde algo me trouxe à mente o sonho de ontem, que penso ser o melhor que já sonhei; eu tinha minha Lady Castlemayne nos braços e ela consentiu que eu usasse com ela todos os galanteios que desejasse, e então sonhei que isso não seria possível acordado, mas que era apenas um sonho; mas que, como era um sonho que me deu tanto real prazer, que coisa feliz seria se, quando estivermos em nossos túmulos (como Shakespeare se assemelha a ele), poderíamos sonhar, e sonhar apenas sonhos como esse, que então não precisaríamos temer tanto a morte, como tememos nesses tempos de peste. [...]

Escureceu antes que eu pudesse chegar em casa e acabei nas escadas de um adro, onde, para minha grande aflição, dei com um cadáver morto de peste, no beco estreito com dois pequenos degraus. Mas agradeço a Deus por não ter ter me perturbado muito com isso. Entretanto, vou tomar cuidado para não ficar fora até tarde de novo.

31 de agosto

Levantei-me e, depois de pôr diversas coisas em ordem para minha mudança, para Woolwich; a peste teve um grande aumento esta semana, para além da expectativa de quase 2.000. Assim, este mês termina com grande tristeza por parte do público, devido à enormidade da peste em quase todo canto do reino. Todos os dias notícias cada vez mais tristes do seu aumento. Na City [centro de Londres] morreram essa semana 7.496 e, desses, 6.102 da peste. Mas se teme que o verdadeiro número de mortos essa semana esteja próximo dos 10 mil; em parte por causa dos pobres que não são levados em conta, devido à sua grande quantidade, em parte por causa dos quakers e outros para quem os sinos não vão dobrar.



Quanto a mim, estou muito bem, só com medo da peste e da febre por ser forçado a ir cedo e tarde para Woolwich, e minha família a ficar lá permanentemente.

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