Rio, 10 (AE) - O livro "Arquitetura Moderna no Brasil"
de Henrique Mindlin, ganha versão brasileira mais de 40 anos depois de ser lançado na França, Inglaterra e Alemanha. Apesar de definida como uma verdadeira bíblia para profissionais brasileiros - por contar como, por que e quem projetou a arquitetura brasileira no mundo inteiro neste século -, a obra quase não circulou no País e, embora uma referência muito citada
era pouco lida. Até porque as edições estrangeiras estavam esgotadas e os originais, em português, foram perdidos.
O lançamento será na terça-feira, no Museu de Arte Moderna, no Rio. Por ser uma edição luxuosa, o livro tem patrocínio integral da construtora Servenco, que comemora com ele seus 50 anos de atuação, mas o público só terá "Arquitetura Moderna no Brasil" à disposição no fim do ano, mas seu preço ainda não foi definido.
A obra é fundamental para se entender as mudanças pelas quais a paisagem brasileira passou do Estado Novo até meados dos anos 50, período considerado de ouro para a arquitetura nacional. Henrique Mindlin era arquiteto renomado, filho de imigrantes russos (e irmão do bibliófilo José Mindlin), quando resolveu contar a história de sua geração, falando sobre os principais profissionais e seus projetos. O resultado foi um balanço de como os arquitetos brasileiros havia criado uma linguagem própria, usando conceitos nacionais, mas respeitando cânones internacionais.
"Na época não se pensou em uma edição brasileira, porque se pensava que o público a quem o livro interessaria podia ler numa das três línguas - francês, inglês e alemão", conta Lauro Cavalcanti, diretor do Paço da Cidade e especialista em arquitetura moderna brasileira. Há mais de dez anos ele tenta lançar o livro em português por considerá-lo indispensável à formação profissional e à própria história da atividade. "Os 20 anos que Arquitetura Moderna no Brasil correspondem a um período em que o governo se dispôs a investir no setor, havia dinheiro e tecnologia disponíveis e, principalmente, grandes talentos."
Nos primeiros anos da década de 50, Henrique Mindlin era um profissional conceituado. Estabelecido em São Paulo, ele foi um dos primeiros a tratar a arquitetura como um trabalho de equipe e prédios importantes, como o Avenida Central (construído no centro do Rio, no lugar da tradicional Galeria Cruzeiro) e a torre do Banco do Estado da Guanabara, tinham sua assinatura. Seu livro tem também um caráter didático, detalhado, destinado ao estudante e ao arquiteto, mas encanta também o leigo pelo texto fluente e acessível.
Após uma introdução abrangendo do Descobrimento e ao barroco - um breve histórico de como os brasileiros modificaram o ambiente em que viveram -, ele descreve em minúcia as principais obras arquitetônicas deste século. Lá estão, registrados em fotografias preto-e-branco, plantas baixas e/ou maquetes a igreja, o cassino e o Iate Clube da Pampulha, em Belo Horizonte (de Oscar Niemeyer); o Maracanã (projeto conjunto de oito arquitetos e calculistas), o Museu de Arte de São Paulo (de Lina Bo Bardi), o Palácio Gustavo Capanema (obra coletiva de sete arquitetos, entre eles Le Corbusier, Lúcio Costa, Niemeyer e Affonso Reidy) e a Cidade Universitária do Rio (de Jorge Machado Moreira).
Mesmo assim, não foi fácil convencer a família de Henrique Mindlin, morto em 1971, a autorizar a edição brasileira. Como o livro foi publicado em 1956 e nunca reeditado
não havia referência a Brasília, cujo projeto data do ano seguinte e a inauguração, de 1960. O autor trabalhava na atualização na época de sua morte e essa foi a exigência de sua filha, Kátia Mindlin, para a publicação em português. Além disso
com os originais perdidos, foi preciso confrontar as três edições para se chegar ao que ele teria escrito. Nesse aspecto, Lauro Cavalcanti contou com o apoio de José Mindlin, que fez uma revisão de estilo na tradução de Paulo Pedreira.
"Em muitos casos havia mais informações em inglês do que em francês ou vice-versa e a solução foi aproveitar o que havia de melhor em cada uma, além de consultar os projetos originais para saber que terminologia foi usada", conta Lauro Cavalcanti. Para atender Kátia Mindlin, ele escreveu uma introdução contando o que ocorreu a partir da segunda metade da década de 50, incluindo a construção de Brasília, que Cavalcanti considera o apogeu da arquitetura brasileira. "Se bem que, de alguns tempos para cá, o interesse nesse período vem ressurgindo pelo mundo afora," ressalta.
Lauro Cavalcanti fez a revisão técnica do livro e prefere não apontar seu projeto preferido, mas cita as obras mais significativas desse período. "A Pampulha é um dos momentos mais felizes da arte visual; o pavilhão brasileiro na Feira Internacional de Nova York; a casa de campo que Sérgio Bernardes projetou para Guilherme Brandi, em Petrópolis; e os prédios de Lúcio Costa para o Parque Guinle, no Rio", relaciona. "Nessa época, a elite brasileira era conservadora e só adotava as novidades arquitetônicas depois que os projetos financiados pelo governo haviam dado certo."
Passados 40 anos do lançamento do livro, Cavalcanti considera positivo o saldo da arquitetura moderna brasileira. "Houve uma expressão ao mesmo tempo original e cosmopolita, sem vassalagem ao que era importado e através da qual a arquitetura brasileira passou a influir no cenário mundial", ensina ele, lembrando que, se alguns conceitos foram revistos desde então, a genialidade dos arquitetos brasileiros é reconhecida. "É preciso diferenciar arquitetura e urbanismo e, se o tempo mostrou que a cidade tradicional é mais confortável, os projetos arquitetônicos daquela época mantêm o valor até hoje."
Quem também comemora o lançamento é a diretora da Editora Aeroplano Heloísa Buarque de Hollanda, que cuidou da versão brasileira. "Este livro está para a arquitetura brasileira como o filme Limite, de Mário Peixoto, para o cinema: todo mundo comentava, mas ninguém havia visto", comenta ela. "Agora será possível confirmar o seu valor para a história e a arte brasileiras."

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