Sai o CD gravado por Gal Costa com músicas de Jobim
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de outubro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 25 (AE) - A paixão de Gal Gosta por Tom Jobim começou na Bahia quando a cantora, certamente uma das mais belas vozes do Brasil, ainda era chamada de Gracinha. Ou seja, há mais de 40 anos. Em 1987, Gracinha teve um grande encontro com Jobim no Wiltern Theatre de Los Angeles, Califórnia, cantando alguns clássicos que agora volta a interpretar em "Gal Costa Canta Jobim", CD duplo lançado pela BMG com 24 títulos do compositor. Os dois discos trazem registros de suas apresentações em 8, 9 e 10 de setembro no Palace, em São Paulo. O show provocou certa frustração.
Era lícito esperar de Gal uma leitura inovadora de Jobim. Ou, no mínimo, algo tão marcante como o encontro do compositor com Elis Regina, que definiu um parâmetro para quem se aventurou, desde então, a gravar clássicos como "águas de Março" ou "Retrato em Branco e Preto". Nenhuma das duas consta da lista de canções selecionadas pelo produtor Marco Mazzola, por Gal e pelo diretor do show, José Possi Neto, o que já indica bom senso do trio. De qualquer forma, não é o repertório o calcanhar-de-Aquiles do disco, mas certos arranjos do pianista Cristóvão Bastos, um excelente instrumentista em momento de pouca inspiração, além da interpretação exageradamente uniforme de Gal Costa.
Curvados ao primeiro mandamento do minimalismo, "less is more" (menos é mais), Mazzola, Gal e Possi Neto optaram por uma produção que, em artes plásticas, encontraria correspondência em Sol Lewitt, Dan Flavin e Larry Bell. Ou seja: Possi pensou nas cores das luzes como parte da estrutura material do despojado cenário, que tinha apenas banners de Tom Jobim. Gal usou apenas um modelinho simples que, remotamente, lembrava um parangolé de Oiticica - mas um parangolé adaptado para o gosto médio.
Em outras palavras: a simplicidade do show era construída artificialmente em detalhes, dos gestos contidos de Gal aos arranjos reprimidos de Bastos. Uma tensão entre a extrema formalidade de Gal e a informalidade artificial dos arranjos resultou numa fusão híbrida entre tradição (as referências aos arranjos de Claus Ogerman) e vira-latice pós-moderna. Paradoxalmente, o que era apenas conceitual ficou marcado fisicamente no corpo do show e do disco. Justamente porque a bossa nova nasceu como resposta aos exageros dos intérpretes dos anos 50, Gracinha cresceu ouvindo artistas que recusavam o monumental em troca de letras e melodias simples.
Uma coisa, porém, é ouvir João Gilberto. Outra é ouvir uma interpretação paródica dessa simplicidade. É muito difícil ser simples. Primeiro, é preciso entender profundamente o que se está cantando - e prevalece a dúvida se Gal entendeu a ambiguidade de "Desafinado", ela que é tão orgulhosa de sua afinação. Em segundo lugar, é preciso certo distanciamento para entender o objeto de transmutação (no caso, as mutantes canções de Jobim).
Claus Ogerman definiu para a posteridade a feição de músicas como "Wave", por exemplo. O próprio Jobim reconhecia a supremacia do arranjador, embora os livros de bossa nova subestimem a importância do músico de origem escandinava (radicado nos EUA). De qualquer modo, os melhores arranjos de Cristóvão Bastos são os que prestam tributo ao clássico arranjo de Ogerman (Wave, inclusive), embora despreze o caráter cíclico imposto pelos sopros na leitura original (o vaivém das ondas, definido filosoficamente pela frase "o resto é mar").
Em Jobim, letra e música fundem-se num único corpo. A intuição de Gal, por vezes, descobre a pista certa (como em Fotografia, uma das melhores faixas do primeiro disco). Infelizmente, nem sempre a intuição da cantora funciona. É preciso lembrar que o melhor disco da carreira de Gal (A Todo Vapor) é pura intuição. Ela parece mais à vontade na geléia geral brasileira do que no circo elegante do arranjo minimal. Liberada do "refinamento", da simplicidade bossa-novista, o resultado parece melhor, mais espontâneo (Gabriela).
Os arranjos de Cristóvão Bastos sucumbem a uma ordem fixa de permutação, em que o violão de Marcos Teixeira ora dialoga com o baixo de André Neiva, ora com o violoncelo de Iura Ranevski. A participação de Ranevski é tão previsível que torna possível adivinhar sua entrada, identificada invariavelmente com um comentário villa-lobosiano, neo-romântico. Não é culpa de Iura, um bom músico, mas já virou síndrome nos arranjos atuais esse fraseado ao estilo de Morelenbaum.
Numa sucinta análise conclusiva, não se pode dizer que a homenagem de Gal Costa a Jobim seja desprezível. Há clássicos maravilhosos no disco (Triste, A Felicidade, Corcovado, Garota de Ipanema), mas pouca emoção. Jobim era um pintor descritivo, matissiano, ligado fundamentalmente à natureza expressiva das cores. Gal, infelizmente, fez um disco morandiano, de tons baixos. Um equívoco. Serviço - "Gal Costa Canta Jobim". CD duplo do selo BMG com o registro do show ao vivo em São Paulo.


