São Paulo, 14 (AE) - Nos anos 60, o dândi e aspirante a escritor Barry Miles não fazia muita coisa na vida além de editar um jornalzinho underground chamado "International Times". Mas tinha amigos muito especiais, como Peter Asher, John Dunbar, John Lennon, Ringo Starr, George Harrison, Paul McCartney, Allen Ginsberg e William Burroughs. Parece que estava gestando o futuro, já que se tornou célebre em nossos dias, 30 anos depois, justamente por ter escrito a história - em biografias consentidas - dos três últimos personagens da lista de amigos acima.
A editora brasileira DBA está lançando agora no Brasil um dos grandes sucessos comerciais de Miles, o livro "Paul McCartney - Many Years from Now", no qual revela a versão de Paul sobre o que foi o furacão Beatles. O livro já tem três anos de seu lançamento na Inglaterra e não foi exatamente um escândalo naquela época - revelou um ou outro hábito sobre consumo de drogas entre os Fab Four, Paul conta de um fracasso sexual com uma stripper em Hamburgo quando era muito jovem e aborda corajosamente as grandes intrigas que levaram à dissolução da banda.
"Eu gostaria de dizer que é apenas como me lembro disso
caso magoe alguém ou a família de qualquer pessoa que se recorde diferentemente", adverte Paul, antes mesmo de começar seus depoimentos. "Para que não pensem que estou tentando realizar meu próprio tipo de revisionismo, eu gostaria de deixar registrado o fato de que John era ótimo, de que ele era absolutamente maravilhoso e eu o adorava", diz o ex-Beatle.
O livro tem um posfácio que atualiza informações sobre o músico, incluindo até a carta que escreveu para distribuir à imprensa quando Linda McCartney morreu, em 17 de abril de 1998, vítima de câncer de mama. "Tive o privilégio de amá-la durante 30 anos e, nesse tempo todo, com exceção de uma ausência forçada
nunca passamos uma noite separados", ele conta. "Quando nos perguntavam por que, dizíamos: e por que não?"
Esse estilo caseiro de McCartney nem sempre foi assim. Antes de Linda, houve uma infinidade de farras. Ele lembra até mesmo que teve problemas com uma prostituta alemã em Hamburgo, onde os Beatles passaram quase um ano tocando, quando eram ilustres desconhecidos. "Era certamente alguma espécie de profissional e lembro que fiquei muito intimidado na cama com ela", diz. "Passei a noite toda sem fazer grande coisa, mas tentando me excitar para aquilo", confessa.
Ele lembra que John Lennon, mesmo quando os Beatles já se tinham separado, continuava dando entrevistas como se nada tivesse acontecido. Em entrevista à revista "Rolling Stone", em janeiro de 1970, ele dizia que estavam para gravar um novo disco. "Toda vez ainda é a mesma batalha e a mesma alegria", afirmara. Divergências - Segundo Barry Miles, um dos grandes motivos de escrever o livro foi para responder a numerosas insinuações de que os grandes clássicos dos Beatles, quase todos eles, foram escritos por John Lennon e não por McCartney ou em parceria. Essas teses cresceram com o assassinato do cantor. "Lennon virou São Lennon, um papel que iria diverti-lo tanto quanto horrorizá-lo", conta Miles.
O escritor diz que, durante a elaboração do livro, eles avaliaram e refizeram a circunstância de criação de todas as composições de Lennon e McCartney e chegaram à conclusão - baseados até mesmo em entrevistas de Lennon - que só havia desarcordo em apenas duas situações. Lennon reivindicara mais de 70% da letra de "Eleanor Rigby", coisa com a qual Paul não concorda. E Paul lembrava de ter composto a música "In My Life", com o que Lennon não concordava.
Paul conta toda a história da composição de "Eleanor Rigby", a faixa que abre o disco "Revolver", gravado em 1966. Ele diz que a música é dele e Lennon só ajudou com algumas palavras. Compôs num piano de armário, num porão de uma casa em Wimpole Street. Diziam que ele retirara o nome Eleanor de uma lápide no cemitério de Woolton, mas Paul diz que era uma homenagem a Eleanor Bron, que fez uma ponta no filme "Help!" e teve um caso com John Lennon. O Padre McKenzie que celebra um casamento, na letra, era para ser Padre McCartney, mas ele achou excessiva a citação.
Paul também analisa um pouco a personalidade dos seus parceiros. "Se minha educação me transformou num sujeito cara-de-bebê razoavelmente instável, a de John foi o oposto, um sujeito muito inseguro, de nariz aquilino e rosto anguloso e irado", diz Paul. "Mas isso é fácil de explicar: o pai foi embora quando John tinha cinco anos e só tornou a vê-lo quando já era famoso". Um jornalista achou o pai de Lennon lavando pratos na Bear Inn de Esher, lembra.
Ele conta também que o envolvimento de George Harrison com a música e a filosofia oriental começou durante a gravação do filme "Help!" Ele aprendeu um pouco de cítara com três músicos indianos convidados para participar de uma versão de "A Hard Days Night". Em outubro de 1965, já apareceria tocando cítara em Norwegian Wood, do álbum "Rubber Soul". Barry Miles bem que tenta ser o mais isento possível, mas o fato de ter dado o livro para McCartney aprovar ou não mostra que nem tudo é assim tão imparcial.
Mas ele aborda questões até meio proibidas entre os Beatles, como o fato de o assassino Charles Manson ter culpado o LSD e o "álbum Branco" dos Beatles pela série de assassinatos que sua "família" praticou. Manson era obcecado pelos Beatles e achava que estes lhe mandavam mensagens. Mas isso é besteira: até o vocalista do A-ha, Morten Hackert, já foi acusado de mandar ordens subliminares em músicas para psicopatas.
No julgamento de Manson, conta Miles, o promotor Vincent Bugliosi, de Los Angeles, disse que o acusou dos assassinatos e ele retrucou: "Não, foram os Beatles, a música que eles espalham. Eles estão falando de guerra. Essa garotada ouve a música e capta a mensagem. É subliminar", afirmou o malucão. Ele conta também que a rivalidade entre Beatles e Stones era "fajuta", forjada por jornalistas do ramo musical do mundo inteiro. "O verdadeiro adversário sempre foi Brian Wilson, o compositor e arranjador dos Beach Boys", conta Miles.

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