Sai em vídeo "Klute", de Pakula, com Jane Fonda
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quinta-feira, 04 de fevereiro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 04 (AE) - Ela foi a mais bela imagem do protesto contra a Guerra do Vietnã, naquele período, por volta de 1970, em que, cada vez mais, multidões saíam às ruas dos Estados Unidos para bradar contra o envolvimento do país no Sudeste Asiático. Em 1972, Jane Fonda ganhou o primeiro de seus dois Oscars por "Klute - O Passado Condena". O thriller de Alan J. Pakula, feito no ano anterior, está sendo lançado pela Warner Home Vídeo em sell thru - venda direta para o consumidor. É um filme que você precisa ter na sua videoteca.
Talvez seja o melhor filme de Pakula, além de trazer Jane em seu melhor papel (muito superior a "Amargo Regresso", de Hal Ashby, que lhe valeu o segundo Oscar). Mas não foi o filme pelo qual o diretor foi lembrado ao morrer num acidente de carro, em novembro. Pakula foi golpeado por um tubo de 2 metros que caiu de um caminhão que ia na frente de seu carro. As autoridades ainda investigam o acidente, já que o motorista não foi identificado (e fugiu sem prestar socorro). Nos seus necrológios, os críticos lembraram principalmente os thrillers políticos de Pakula, filmes como "A Trama", com Warren Beatty, e, principalmente, "Todos os Homens do Presidente", com Robert Redford e Dustin Hoffman, em que reconstituiu o caso Watergate. Esqueceram-se de "Klute", um filme verdadeiramente excepcional.
Com esse filme, Pakula fez a sua particular versão da lenda de Orfeu e Eurídice, mostrando Donald Sutherland como o Orfeu moderno que resgata do inferno a Eurídice de Jane Fonda. Ela se chama Bree Daniels e é uma prostituta de luxo, uma call girl que pode selecionar seus clientes entre homens dispostos a pagar caro por uma hora de prazer em sua companhia. Sutherland, o "Klute" do título, é o detetive de uma cidade pequena que chega a Nova York à procura de um amigo que desapareceu. Sua busca o leva a cruzar com Bree, num momento de angústia para ela
ameaçada pelo sádico que já matou uma colega sua, também prostituta.
Como em outros thrillers criminais de Pakula (caso de "Acima de Qualquer Suspeita", baseado no best seller de Scott Turow), "Klute - O Passado Condena" é o que se pode chamar de suspense psicológico. Tem ação, mas o que interessa é o desenho interior dos personagens, observados de perto por uma câmera interessada em desvendar suas motivações mais secretas. E também é um filme sobre a confiança, esse tema obsessivo do diretor, que quase sempre falou da quebra de confiança entre casais e até mesmo entre cidadãos e as instituições dos Estados Unidos.
Liberdade - Bree passa boa parte do filme fazendo terapia. Ela acha que sua profissão é liberalizadora porque, como prostituta, se sente-se com absoluto controle sobre a sua vida. Isso pode valer para o sexo, como na cena em que simula um orgasmo, depois de acertar o preço com o cliente, mas certamente não vale para os sentimentos. Ao apaixonar-se por Klute, Bree descobre que terá de renunciar à sua idéia de uma liberdade absoluta (que não existe para ela, nem ninguém). É preciso confiar. Isso termina por exteriorizar toda a insegurança e vulnerabilidade de Bree, levando-a a transformar-se numa vítima em potencial para o assassino.
Resgatada do inferno que é a sua quase morte, numa cena de tensão exemplar, a heroína será forçada a repensar suas atitudes em relação ao amor, ao sexo e aos homens. Bree terminará o filme mais madura do que começou, num equilíbrio duramente alcançado (e gratificante também para o espectador).
"Klute" surgiu numa época em que o cinema americano recomeçava a interessar-se pela figura do detetive particular, que havia brilhado nos anos 40 e 50, numa memorável série de filmes de tendência noir. Mas é compreensível que, ao Klute de Sutherland, por mais decisivo que seja para a evolução do relato
o diretor prefira a Bree de Jane. É uma criação que beira a genialidade.
Militância - Admirável Jane: objeto sexual em "Barbarella", de seu então marido, Roger Vadim, deu novo rumo para sua carreira (e vida). Virou militante que podia estimular polêmica por seu engajamento político, mas não pelo extraordinário talento. Jane é perfeita nas cenas em que tem de expressar a fragilidade de Bree. Pouco antes (em 1969), havia aparecido em seu outro grande papel, como a participante da maratona de dança de "A Noite dos Desesperados", de Sydney Pollack. As mudanças não terminaram por aí e ela continuou surpreendendo seu fãs.
A ex-ativista política casou-se com Ted Tuner e nos últimos anos tem produzido livros e vídeos com sessões de ginástica e programas de saúde que mostram que a mulher pode chegar aos 60 anos com um corpinho de 20. E não hesita em definir o marido como o verdadeiro feminista da casa. A única causa política a que se dedica atualmente é uma ONG que luta pela prevenção da gravidez na adolescência.
Sem filmar desde "Stanley e Íris" (de 1990), Jane afirma que não tem planos de voltar as sets de filmagem. Mas passou boa parte de 1997 e 98 revendo seus filmes, do primeiro, "Até os Fortes Vacilam "(com Anthony Perkins) ao último (com Robert De Niro). Essa viagem, que ela afirma ter sido pouco nostálgica, permitiu-lhe avaliar numa perspectiva crítica sua carreira no cinema.
Ela concorda com os críticos que consideram seus melhores papéis nos filmes de Pakula e Pollack. Mas guarda excelente lembrança de "O Perigoso Jogo do Amor", seu primeiro filme com Vadim, sobre uma milionária que tem um caso com o enteado, baseado em Émile Zola. Foi nesse filme, afirma Jane, que descobriu que podia representar. "Klute - O Passado Condena" (Klute). EUA, 1971. Direção de Alan J. Pakula, com Jane Fonda. Warner Home Vídeo. À venda em magazines, supermercados e na rede 2001. Preço médio: R$18,50


