A capa do livro de 935 páginas faz um trocadilho divertido: God e Ard, uma reminiscência do 'God-Art' de Andy Warhol. Não se trata de ''uma'' biografia. É ''La Biographie'', a primeira de Jean-Luc Godard em língua francesa. Saíram duas em inglês - por Richard Brody e Colm McCabe -, ambas desautorizadas pelo biografado. Godard também não gostou da biografia de Antoine de Baecque (editora Grasset & Fasquelle), mas já anunciou que não vai fazer nada para impedir sua circulação. O cineasta confessa que ''percorreu'', não leu, o livro, e se aborreceu por sua companheira, Anne-Marie Miéville. ''Existe muita coisa falsa'', diz Godard. E ele também se aborreceu porque integrantes de sua família colaboraram com Baecque, cedendo documentos. Sentiu-se traído.
Baecque conta, na introdução, que a biografia de Godard era a tarefa insana que ele prometia a si mesmo, um dia, encarar.
Baecque não se encontrou com Godard para o livro. Pesquisou toneladas de textos, análises e entrevistas, às quais somou horas de entrevistas com familiares e colaboradores.
O ramo paterno, Godard, era pobre (e suíço). O materno, Monod, pertencia à alta burguesia francesa. O avô foi amigo de Paul Valèry e executor do testamento do poeta. Garoto, sem dinheiro, Jean-Luc se apropriou de itens - livros - do acervo de Valèry, que repassou a colecionadores. Descoberto, virou o pária da família e arrastou consigo o pai. Separado da mãe de Godard, ele foi proibido - com o filho - de ir ao enterro, quando ela morreu em consequência de um acidente (caiu e bateu com a cabeça). Quando começou a escrever em ''Cahiers du Cinema'', Godard também assaltou o caixa da revista.
Muito jovem, Godard viajou pela América Latina, fazendo - mais ou menos - o mesmo percurso de Ernesto Guevara, antes de virar o Che. Com a diferença de que começou pelos EUA (Nova York, em 1949). Esteve no Peru, no Chile. Hospedou-se numa pensão em Copacabana. A confrontação com a miséria latina foi decisiva em sua formação. Não foi um bom estudante. E era suicida. Eric Rohmer conta que ele dava de cabeça contra muros e paredes (literalmente).
A relação com Anna Karina, celebrada em tantos filmes que fazem parte da história do cinema, teve momentos sinistros. Viveram às turras, tentaram (ambos) se matar. Ele demitiu Isabelle Adjani e fez de Maruscha Detmers a sua Carmem. Descobriu Myriam Roussel durante a filmagem de ''Passion'', em 1982. Escreveu para ela roteiro inspirado na relação de Freud com Dora, sua primeira paciente. Depois, outro sobre incesto. Finalmente, fez ''Je Vous Salue, Marie'', que produziu escândalo.
A vida íntima, familiar e afetiva é um dos eixos do livro. O outro trata do artista. Um revolucionário do cinema como Godard dificilmente poderia reunir a unanimidade da crítica. ''Viver a Vida'' e ''O Desprezo'', talvez os melhores filmes do autor, foram mal recebidos. Baecque enumera fases (da vida e da carreira) - disseca o Godard militante do grupo Dziga Vertov. Uma vida como a de Godard não poderia ser resumida. E o homem é um mito. Antoine de Baecque conseguiu o mais difícil. Dar conta dessa complexidade - e não é que respeite o mito, mas Godard sai maior de seu livro.

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