Desde 1991, quando a Record foi comprada pelo Bispo Edir Macedo, todos os presidentes da emissora eram bispos da Igreja Universal do Reino de Deus. Na semana passada, no entanto, o advogado Dennis Munhoz assumiu o posto e a responsabilidade de desvincular a imagem da emissora da Igreja de seu principal acionista. Dennis até frequenta os cultos do Bispo Macedo, mas faz questão de ser reconhecido como um executivo do setor televisivo. ''Com alguém que não é da Igreja na presidência da emissora, fica clara a opção pela linha comercial. E isso é muito bom'', avalia o advogado, que tem 42 anos e era vice-presidente da emissora desde fevereiro de 2002.
Dennis garante que não houve nenhum motivo específico para a troca de comando na Record. A presidência era anteriormente ocupada por bispos Honorilton Gonçalves, agora diretor da emissora, e Clodomir Santos, que foi afastado. ''Foi uma decisão dos acionistas'', desconversa o novo presidente. Ele assume com três objetivos principais: negociar a transmissão do Campeonato Brasileiro com a Globo, reativar o núcleo de dramaturgia da Record e fortalecer a imagem de programação familiar. ''Hoje, somos uma alternativa à vala comum da tevê brasileira, que tem apelação, erotismo e baixaria'', prega.
Quais são os principais objetivos da Record em 2003?
O mais importante é fortalecer a luta, que já começamos há algum tempo, por uma programação de qualidade, sem apelações, sem baixaria. Vamos adotar uma postura mais firme, montando comissões, propondo idéias. No último ano, já encabeçamos cobranças pelo posicionamento de outras emissoras, do governo, das autoridades, mas pouca coisa aconteceu. Temos expectativa de que este ano aconteça alguma coisa. Quanto à nossa colocação, queremos buscar o segundo lugar na audiência em 2003. E sempre mantendo o lugar importante que ocupamos na sociedade, que é o de uma emissora a que toda a família pode assistir.
Há mudanças previstas na programação?
Há coisas que podem ser melhoradas, mas nós temos uma cesta de produtos muito variada para oferecer tanto ao público quanto ao departamento comercial das empresas. Temos infantis, shows, esportes, novelas e jornalismo, que é o nosso carro-chefe. Queremos apostar cada vez mais no jornalismo e voltar a produzir novelas. Vamos investir na ampliação de um estúdio para reimplantar nosso núcleo de produção de teledramaturgia. É um projeto caro, mas com retorno garantido. Mesmo que tenha de ser adiado, não vai ser cancelado. E vamos tentar negociar a transmissão do Campeonato Brasileiro com a Globo. Só depois de resolvida a questão do futebol, vamos estruturar o restante da grade.
Como você avalia a relação entre um veículo de comunicação como a Record e uma igreja?
Eu não consigo vislumbrar qualquer ligação entre a religião e a programação da Record. Simplesmente, um bispo da Igreja é o acionista principal da emissora, mas isso não tem qualquer relação com a programação. Quanto ao espaço que a Igreja ocupa na grade, é uma coisa estritamente comercial, como acontece em outras emissoras, como a Band, a CNT, a Gazeta: a Igreja paga pelo espaço que ocupa.
Mas não há o risco de interferências na programação, como o caso em que o apresentador Amaury Jr. reclamou de censura na emissora?
Este caso específico está na Justiça e eu prefiro não comentar. O que posso dizer é que nunca aconteceu qualquer espécie de censura. Eu duvido que qualquer outra emissora dê mais liberdade ao profissional que a Record. Mesmo neste caso, outros profissionais que já trabalharam ou ainda trabalham conosco saíram a nosso favor, porque sabem que isso nunca aconteceu aqui. Agora, é claro que quem quiser fazer baixaria, quem quiser fazer apelação ou apologia do que quer que seja, não vai fazer aqui.
Como você avalia a equação qualidade versus audiência?
A qualidade da programação é nossa prioridade absoluta. Se pudermos atrelar o faturamento à qualidade, melhor ainda. Mas em nenhum momento vamos abrir mão da qualidade por alguns pontos no ibope ou por alguns milhões a mais no faturamento.

mockup