Sade e a arte de provocar
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de fevereiro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
A relação entre literatura e erotismo, bem como relatos de artistas torturados e incompreendidos são prato cheio para o cinema, sempre de olho nos dividendos, sejam intelectuais, sejam meramente de ocasião em busca de lucro fácil. E foi em nome de prestígio artístico que Contos Proibidos do Marquês de Sade, que entra em cartaz em Londrina, (veja a programação de cinema na página 4), sobre os últimos anos do ainda hoje enigmático personagem, acabou nas mãos de Philip Kaufman, considerado um especialista em matérias controversas e em conjugar entretenimento de massa com certas pretensões cerebrais.
Contos Proibidos... deve muito ao preciosismo de um determinado cinema de qualidade, elegância ao estilo James Ivory, e também ao tom mais solto de Relações Perigosas, de Stephen Frears. O filme, no entanto, pretende ir ainda mais longe e define o marquês como uma espécie de herói clássico, um paladino da livre expressão, capaz de escrever suas obras mesmo sem o instrumento habitual, as penas (Quills, do título original), mas com o próprio sangue e até com fezes, sobre as roupas, nas paredes e, inclusive, sobre o próprio corpo. Isto acontece quando, no final do século 18, ao começar a Revolução Francesa, Sade (Geoffrey Rush) é trancafiado no hospício de Chareton. Motivo: é considerado um rebelde perigoso, alguém preocupado em esmiuçar os segredos mais tenebrosos da sociedade. O filme aborda este momento da trajetória do criador do sadismo, e trabalha em cima de temas muito caros aos escritor: a luta eterna entre amor e luxúria e entre as brutais mordaças da censura que castram a livre expressão do pensamento.
Baseado em obra teatral de Dough Wright (aqui também roteirista), o filme propõe uma fábula moral contra o autoritarismo e o arbítrio, de certa forma se valendo de uma linha de thriller como O Informante ou de uma crítica aos abusos psiquiátricos como em Um Estranho no Ninho. Este olhar austero em cima do autor de Justine permite contrabançar o lado mais delicado de uma produção realizada com dinheiro de Hollywood, isto é, a presença de perversões sexuais, a faceta mais sórdida, contraditória e complexa do livre pensador que escandalizou a aristocracia parisiense. A estrutura dramática se detém sobre estes aspectos eróticos e sexuais mas acaba prevalecendo o enfoque dado à liberdade de expressão, em que Napoleão é mostrado como um grosseirão paranóico. Em Contos Proibidos..., o escritor não apenas está encarcerado, em seguida ao surgimento anônimo de Justine, como decide não escrever mais, principalmente por causa das pressões e privações. Seus textos até então têm chegado ao editor graças a uma dedicada lavadeira que o adora (Kate Winslet) e apesar do sádico diretor do hospício (Michael Caine).
O diretor Kaufman, a exemplo de Os Eleitos, A Insustentável Leveza do Ser e Henry e June, soube tirar proveito do material adaptado para o cinema pelo próprio teatrólogo Doug Wright - embora certo imobilismo cênico e a grandiloquência de alguns diálogos denunciem a origem. E não há como negar que Contos Proibidos do Marquês de Sade é representante de certo tipo de cinema de arte preconcebido, planejado pelos estúdios para uma ampla circulação mundial nas imediações do anúncio de candidaturas a prêmios importantes - Globo de Ouro e Oscar. O filme deve receber daqui a alguns dias diversas indicações para prêmios da Academia, provavelmente nominações em fotografia, vestuário, musica, direção artística, desenho de produção). E pelo menos o nome de Geoffrey Rush deve figurar na lista de possíveis melhores atores: ele não faz o Sade libidinoso que qualquer um imaginaria. Ao contrário, imprime força e chama interior, procurando humanizar e tornar mais transparentes as contradições do personagem.
No cômputo geral, relevadas as restrições secundárias por conta de certo desnível dramático e uma solene vulgaridade em momentos isolados, Contos Proibidos... passa bem no teste de uma cinebiografia que, em outras mãos, poderia cair em sérias e imperdoáveis tentações.


