A relação entre literatura e erotismo, bem como relatos de artistas torturados e incompreendidos são prato cheio para o cinema, sempre de olho nos dividendos, sejam intelectuais, sejam meramente de ocasião em busca de lucro fácil. E foi em nome de prestígio artístico que ‘‘Contos Proibidos do Marquês de Sade’’, que entra em cartaz em Londrina, (veja a programação de cinema na página 4), sobre os últimos anos do ainda hoje enigmático personagem, acabou nas mãos de Philip Kaufman, considerado um especialista em matérias controversas e em conjugar entretenimento de massa com certas pretensões cerebrais.
‘‘Contos Proibidos...’’ deve muito ao preciosismo de um determinado cinema de ‘‘qualidade’’, elegância ao estilo James Ivory, e também ao tom mais solto de ‘‘Relações Perigosas’’, de Stephen Frears. O filme, no entanto, pretende ir ainda mais longe e define o marquês como uma espécie de herói clássico, um paladino da livre expressão, capaz de escrever suas obras mesmo sem o instrumento habitual, as penas (‘‘Quills’’, do título original), mas com o próprio sangue e até com fezes, sobre as roupas, nas paredes e, inclusive, sobre o próprio corpo. Isto acontece quando, no final do século 18, ao começar a Revolução Francesa, Sade (Geoffrey Rush) é trancafiado no hospício de Chareton. Motivo: é considerado um rebelde perigoso, alguém preocupado em esmiuçar os segredos mais tenebrosos da sociedade. O filme aborda este momento da trajetória do criador do ‘‘sadismo’’, e trabalha em cima de temas muito caros aos escritor: a luta eterna entre amor e luxúria e entre as brutais mordaças da censura que castram a livre expressão do pensamento.
Baseado em obra teatral de Dough Wright (aqui também roteirista), o filme propõe uma fábula moral contra o autoritarismo e o arbítrio, de certa forma se valendo de uma linha de ‘‘thriller’’ como ‘‘O Informante’’ ou de uma crítica aos abusos psiquiátricos como em ‘‘Um Estranho no Ninho’’. Este olhar austero em cima do autor de ‘‘Justine’’ permite contrabançar o lado mais delicado de uma produção realizada com dinheiro de Hollywood, isto é, a presença de perversões sexuais, a faceta mais sórdida, contraditória e complexa do livre pensador que escandalizou a aristocracia parisiense. A estrutura dramática se detém sobre estes aspectos eróticos e sexuais mas acaba prevalecendo o enfoque dado à liberdade de expressão, em que Napoleão é mostrado como um grosseirão paranóico. Em ‘‘Contos Proibidos...’’, o escritor não apenas está encarcerado, em seguida ao surgimento anônimo de ‘‘Justine’’, como decide não escrever mais, principalmente por causa das pressões e privações. Seus textos até então têm chegado ao editor graças a uma dedicada lavadeira que o adora (Kate Winslet) e apesar do sádico diretor do hospício (Michael Caine).
O diretor Kaufman, a exemplo de ‘‘Os Eleitos’’, ‘‘A Insustentável Leveza do Ser’’ e ‘‘Henry e June’’, soube tirar proveito do material adaptado para o cinema pelo próprio teatrólogo Doug Wright - embora certo imobilismo cênico e a grandiloquência de alguns diálogos denunciem a origem. E não há como negar que ‘‘Contos Proibidos do Marquês de Sade’’ é representante de certo tipo de cinema de arte preconcebido, planejado pelos estúdios para uma ampla circulação mundial nas imediações do anúncio de candidaturas a prêmios importantes - Globo de Ouro e Oscar. O filme deve receber daqui a alguns dias diversas indicações para prêmios da Academia, provavelmente nominações em fotografia, vestuário, musica, direção artística, desenho de produção). E pelo menos o nome de Geoffrey Rush deve figurar na lista de possíveis melhores atores: ele não faz o Sade libidinoso que qualquer um imaginaria. Ao contrário, imprime força e chama interior, procurando humanizar e tornar mais transparentes as contradições do personagem.
No cômputo geral, relevadas as restrições secundárias por conta de certo desnível dramático e uma solene vulgaridade em momentos isolados, ‘‘Contos Proibidos...’’ passa bem no teste de uma cinebiografia que, em outras mãos, poderia cair em sérias e imperdoáveis tentações.

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