Sacudindo a poeira da modernidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de abril de 1999
Ranulfo Pedreiro 
Enquanto parte da música brasileira se acomoda em produções de digestão fácil, regravações, ou descamba pelos leitos do mercado nas ondas do consumo rápido, o compositor maranhense Zeca Baleiro segue caminho inverso, soltando farpas em Vô Imbolá, seu segundo disco.
Baleiro mergulhou na parafernália tecnológica, mas também radicalizou nas raízes populares, acentuando ritmos que vão do bumba-meu-boi ao samba e forró, homenageando a velha guarda de Nelson Cavaquinho e Luiz Gonzaga. O tradicional sofre releituras e serve de embasamento para crítica a uma modernidade oca por desprezar o conhecimento em virtude do apelo meramente estético. É assim que versos de Nelson Cavaquinho ganham batida rap para questionar o piercing. Da mesma forma, um texto inconsistente e pretensioso satiriza clichês de artes plásticas em Bienal.
A tecnologia, que circula por todo o disco, não foge da mira, questionada enquanto tábua de salvação para a falta de talento quando empregada sem critérios. Todo esse discurso, carregado de direcionamento ideológico, estrutura-se num verdadeiro mix sonoro que traz, propositalmente, doses de exagero e bicho-grilagem.
Nessa trilha, compositores e poetas que não chafurdaram no pântano comercial ganham destaque: há citações homenageando Baudelaire, Jards Macalé, Itamar Assumpção e outros. Do maldito Sérgio Sampaio, Baleiro ressuscitou Tem que Acontecer.
Vô Imbolá - lançado pela MZA/Universal - conta com participação de Marcos Suzano, Zeca Pagodinho, Chico César, Daúde, Farofa Carioca, Kleiton & Kledir, Marcos Assumpção, Maurício Pereira, Mestre Ambrósio, Paulinho Moska, Paulo Lepetit, Vange Milliet, Verônica Sabino, Virgínia Rosa, Rita Ribeiro, Zé Ramalho, As Gatas, Faces do Subúrbio, Arthur Maia e outros.
De Reginaldo Rossi e Secos & Molhados a Frank Zappa e Lou Reed, as citações e samples se multiplicam. Mas a eletrônica cede espaço a instrumentos como a rabeca e não massacra o lirismo desprendido de canções próximas das que rechearam Por Onde Andará Stephen Fry?, seu primeiro disco.
Se Vô Imbolá, Pagode Russo (Luiz Gonzaga/João Silva) e Piercing usam todo tipo de recursos, Lenha, Tem que Acontecer, Não Tenho Tempo e Maldição ganham despojamento acústico. Nega Tu Dá no Couro parte para o arrasta-pé, enquanto Boi de Haxixe - com o tradicional Boi de Axixá - exalta o ritmo maranhense e Samba do Approach é um bom partido alto. Preparando os shows de divulgação do CD, Zeca Baleiro conversou com a Folha2.
Foi mais fácil realizar o segundo disco?Arquivo FolhaZeca Baleiro: A tecnologia tem que estar a serviço em todos os níveis de criatividade, não pode salvar uma má idéia, muito menos a falta de talentoZeca Baleiro usa eletrônica e ritmos tradicionais para questionar tendências contemporâneas em Vô Imbolá


