O público e o elenco estarão enclausurados no espetáculo ‘‘Sacromaquia’’, que estréia domingo na mostra oficial do 10º Festival de Teatro de Curitiba. Para contar a história de cinco mulheres que almejam a redenção através do claustro, o cenógrafo Márcio Medina construiu um pequeno espaço de 64 metros quadrados. Entre quatro paredes, uma espécie de santuário abrigará a reduzida platéia de 50 pessoas. O objetivo é que o público vivencie as sensações das personagens.
Pelo inédito cenário, ‘‘Sacromaquia’’ está concorrendo ao Prêmio Shell deste ano na categoria. A indicação é resultado da brilhante temporada de estréia, em São Paulo, no segundo semestre de 2000.
‘‘O chão branco dará uma idéia de infinito e o trabalho de iluminação não permitirá ao público ter a dimensão exata das paredes, aumentando a sensação de confinamento’’, explica o cenógrafo. Com cinco metros de altura, as paredes foram construídas com uma mistura de materiais orgânicos, como cana de açúcar, folhas e barro, o que garante o mesmo aspecto dos antigos conventos.
Em Curitiba, tal cenário foi montado no galpão do Polloshop Estação, por escolha da própria companhia. O público entrará pela rampa de emergência e será conduzido por um túnel até o espaço criado para o espetáculo.
‘‘A peça não só depende do cenário como dialoga o tempo todo com ele’’, elogia a diretora Maria Thaís. Ela explica que ‘‘Sacromaquia’’ não permite uma relação convencional entre atores e espectadores, por isso ela não abriu mão da idéia de clausura da platéia.
Segundo a diretora, o espetáculo é extremamente delicado. ‘‘O público terá que estar muito presente para ouvir os passos, os sussurros...’’. Maria Thaís conta que a idéia desta montagem surgiu quase que por acaso. ‘‘Foram caindo na minha mão várias histórias sobre a clausura feminina dos séculos 17 e 18’’, explica. Entre elas, livros de Otávio Passos e Ana Miranda.
Ao todo, a trupe – Cia de Teatro Balagan – pesquisou e ensaiou durante um ano. O intenso trabalho de preparação incluiu visitas não só a conventos e outros espaços religiosos, mas também a presídios e prostíbulos. ‘‘Hoje há várias outras formas de clausura’’, diz.
O texto foi escrito originalmente em janeiro do ano passado, por Antônio Rogério Toscano, mas já está em sua oitava versão. Esta é a primeira viagem do espetáculo ‘‘Sacromaquia’’, que depois de Curitiba irá para Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte.
Em cena estão mulheres que acreditam no isolamento como forma de sacralização do corpo e da alma. Para elas, o claustro é a via para a espiritualização. Os maiores conflitos no espetáculo têm início quando uma menina branca, criada na senzala por escravos africanos, chega ao convento.
O elenco é formado por Carol Badra, Eloisa Elena, Fernanda Haucke, Fernanda Rapisarda, Lúcia Romano, Melissa Vettore, Mônica Guimarães e Newton Moreno.
A diretora Maria Thaís, nascida no sertão da Bahia, tem 41 anos de idade e 26 de palco. Pedagoga teatral formada no Rio de Janeiro, ela mora há 11 anos em São Paulo, onde está sediada a sua companhia.

mockup