Sacos de gatos
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de agosto de 1998
Nelson Sato 
Quantas trilhas sonoras são despejadas por ano no mercado? Se você assinalou uma estimativa próxima a 70 CDs, parabéns. Os números estão beirando essa faixa, pelo menos desde o começo dessa década quando as grandes gravadoras despertaram para o potencial de vendas do filão.
A atual temporada tem sido pródiga em lançamentos do gênero. Entre os títulos que acabam de aterrissar nas lojas figuram as trilhas dos filmes Arquivo X, Perdidos no Espaço, Godzilla e Scream - 2. Da fornada, as duas primeiras atendem - em parte - a um segmento específico do mercado, que nos Estados Unidos recebe o nome de score, ou seja, a música que permeia e ambienta o filme.
No caso de Arquivo X, o lançamento chega separado em dois discos: um trazendo os sons compostos por Mark Snow para as cenas, outro recheado de canções interpretadas por artistas pop. Snow, convém sublinhar, já imprimiu seu nome na história das trilhas com a música-tema do seriado de TV, no qual se baseou o filme.
Sua composição, com o impagável assobio sintetizado, vai certamente se inscrever na categoria de clássicos que inclui temas como o da Pantera Cor-de-Rosa (de Henry Mancini) e de Missão Impossível (de Lalo Schifrim). A música, aliás, está presente no segundo CD do filme em versão remixada pelos Dust Brothers.
A nova abordagem, detestada por Snow, traz batidas de hip hop, samples e climas de seriados dos anos 70. Além deles, a coletânea - expressão apropriada para definir essa e a maioria das trilhas atuais - reúne nomes famosos como Sting e The Cure e outros nem tanto como Tonic e Better Than Ezra. The Cure paga um mico incorporando batidinha dançante inofensiva na linha Pet Shop Boys.
Bjork é um dos destaques com Hunter, faixa que abre seu último álbum combinando batidas marciais eletrônicas e orquestração. The Filter injeta peso em One. Noel Gallagher, do Oasis, comete extravagância em Teotihuacan trocando a guitarra por piano e batidas trip hop. Foo Fighters amacia o barulho com uma babinha romântica, gênero reiterado pela banda nas trilhas de Godzilla e Scream - 2.
A continuar assim, a banda brevemente lança uma compilação de suas músicas incluídas em trilhas. Em Godzilla, o Foo Fighters ressurge como que pisoteado - junto com o restante da elenco do disco - pelo célebre lagartão. Anêmicas em sua maioria, as faixas se arrastam pedindo para serem eliminadas.
Entre mortos e feridos, no meio dos quais se encontram Green Day, Silverchair, Jamiroquai e a parceria Puff Daddy e Jimmy Page, safam-se a cover do The Wallflowers para Heroes (memorável canção de David Bowie que já havia recebido uma releitura do Oasis no ano passado) e a paulada raivosa desfechada pelo Rage Against The Machine em No Shelter.
A coisa não melhora na trilha de Scream - 2, um disco típico para ser arremessado em sacos de lixo em dias de mudança de casa, quando se pretende transportar apenas o essencial. Em meio ao desolador panorama geral, o bardo Nick Caves acompanhado pelos Bad Seeds e a banda Eels até que fornecem algum alento com as respectivas faixas Red Right Hand e Your Luke Day In Hell. Merecem vaias gerais Collective Soul, Dave Mathews Band, Everclear e todo o bando restante.
Menos ruim, a trilha de Perdidos no Espaço envereda pelas tendências eletrônicas, priorizando a chamada BigBeat. Isso na primeira parte do disco, já que a outra registra as passagens instrumentais do filme com assinatura de Bruce Broughton.
Um bom time desfila pelas faixas, entre as quais despontam Busy Child da dupla The Crystal Method; Will & Pennys Theme do trio Apollo 440; e Songs for Penny da também dupla Death in Vegas. Não que seja a oitava maravilha, mas Perdidos no Espaço pelo menos sugere menos ecletismo na escalação dos artistas e no repertório.
Já houve época em que trilhas de filmes mereciam um lugar privilegiado na estante, atraíam colecionadores e faziam parte da cultura de cinéfilos. Hoje, inundam as prateleiras das lojas como reféns das regras do mercado. Ao público, resta a opção de engolir ou não coletâneas sem critérios.


