Quantas trilhas sonoras são despejadas por ano no mercado? Se você assinalou uma estimativa próxima a 70 CDs, parabéns. Os números estão beirando essa faixa, pelo menos desde o começo dessa década quando as grandes gravadoras despertaram para o potencial de vendas do filão.
A atual temporada tem sido pródiga em lançamentos do gênero. Entre os títulos que acabam de aterrissar nas lojas figuram as trilhas dos filmes ‘‘Arquivo X’’, ‘‘Perdidos no Espaço’’, ‘‘Godzilla’’ e ‘‘Scream - 2’’. Da fornada, as duas primeiras atendem - em parte - a um segmento específico do mercado, que nos Estados Unidos recebe o nome de score, ou seja, a música que permeia e ambienta o filme.
No caso de ‘‘Arquivo X’’, o lançamento chega separado em dois discos: um trazendo os sons compostos por Mark Snow para as cenas, outro recheado de canções interpretadas por artistas pop. Snow, convém sublinhar, já imprimiu seu nome na história das trilhas com a música-tema do seriado de TV, no qual se baseou o filme.
Sua composição, com o impagável ‘‘assobio’’ sintetizado, vai certamente se inscrever na categoria de clássicos que inclui temas como o da ‘‘Pantera Cor-de-Rosa’’ (de Henry Mancini) e de ‘‘Missão Impossível’’ (de Lalo Schifrim). A música, aliás, está presente no segundo CD do filme em versão remixada pelos Dust Brothers.
A nova abordagem, detestada por Snow, traz batidas de hip hop, samples e climas de seriados dos anos 70. Além deles, a coletânea - expressão apropriada para definir essa e a maioria das trilhas atuais - reúne nomes famosos como Sting e The Cure e outros nem tanto como Tonic e Better Than Ezra. The Cure paga um mico incorporando batidinha dançante inofensiva na linha Pet Shop Boys.
Bjork é um dos destaques com ‘‘Hunter’’, faixa que abre seu último álbum combinando batidas marciais eletrônicas e orquestração. The Filter injeta peso em ‘‘One’’. Noel Gallagher, do Oasis, comete extravagância em ‘‘Teotihuacan’’ trocando a guitarra por piano e batidas trip hop. Foo Fighters amacia o barulho com uma babinha romântica, gênero reiterado pela banda nas trilhas de ‘‘Godzilla’’ e ‘‘Scream - 2’’.
A continuar assim, a banda brevemente lança uma compilação de suas músicas incluídas em trilhas. Em ‘‘Godzilla’’, o Foo Fighters ressurge como que pisoteado - junto com o restante da elenco do disco - pelo célebre lagartão. Anêmicas em sua maioria, as faixas se arrastam pedindo para serem eliminadas.
Entre mortos e feridos, no meio dos quais se encontram Green Day, Silverchair, Jamiroquai e a parceria Puff Daddy e Jimmy Page, safam-se a cover do The Wallflowers para ‘‘Heroes’’ (memorável canção de David Bowie que já havia recebido uma releitura do Oasis no ano passado) e a paulada raivosa desfechada pelo Rage Against The Machine em ‘‘No Shelter’’.
A coisa não melhora na trilha de ‘‘Scream - 2’’, um disco típico para ser arremessado em sacos de lixo em dias de mudança de casa, quando se pretende transportar apenas o essencial. Em meio ao desolador panorama geral, o bardo Nick Caves acompanhado pelos Bad Seeds e a banda Eels até que fornecem algum alento com as respectivas faixas ‘‘Red Right Hand’’ e ‘‘Your Luke Day In Hell’’. Merecem vaias gerais Collective Soul, Dave Mathews Band, Everclear e todo o bando restante.
Menos ruim, a trilha de ‘‘Perdidos no Espaço’’ envereda pelas tendências eletrônicas, priorizando a chamada ‘‘BigBeat’’. Isso na primeira parte do disco, já que a outra registra as passagens instrumentais do filme com assinatura de Bruce Broughton.
Um bom time desfila pelas faixas, entre as quais despontam ‘‘Busy Child’’ da dupla The Crystal Method; ‘‘Will & Penny’s Theme’’ do trio Apollo 440; e ‘‘Songs for Penny’’ da também dupla Death in Vegas. Não que seja a oitava maravilha, mas ‘‘Perdidos no Espaço’’ pelo menos sugere menos ecletismo na escalação dos artistas e no repertório.
Já houve época em que trilhas de filmes mereciam um lugar privilegiado na estante, atraíam colecionadores e faziam parte da ‘‘cultura’’ de cinéfilos. Hoje, inundam as prateleiras das lojas como reféns das regras do mercado. Ao público, resta a opção de engolir ou não coletâneas sem critérios.

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