Saci-pererê volta por cima

Depois de sumir das prateleiras desde seu lançamento em 1918, primeiro livro de Monteiro Lobato é reeditado pelo Projeto Memória
ReproduçãoIlustração da capa da nova edição de ‘‘O Saci-Perer꒒: figura mítica encantou Lobato

Agência Folha
Nada como uma efeméride para colocar tudo em seu devido lugar. Quem ainda achava que Monteiro Lobato estreara em livro com a coletânea de contos ‘‘Urupês’’, pode se surpreender com o atual resgate de sua obra, cujo último fruto traz de volta ao público o verdadeiro e renegado primeiro título do escritor.
A novidade é a reedição em versão fac-símile (cópia fiel) do esgotado ‘‘O Saci-Pererê - Resultado de um Inquérito’’, publicado originalmente em 1918 sem a assinatura do autor. O relançamento fecha o ciclo de festejos iniciado no ano passado em torno do cinquentenário da morte de Lobato, que teve como principal promotor o Projeto Memória - parceria da Fundação Banco do Brasil com a Organização Odebrecht - dedicado a homenagear uma personalidade cultural brasileira por ano.
O projeto foi iniciado com o patrocínio da premiada biografia ‘‘Monteiro Lobato - Furacão na Botocúndia’’ (editora Senac São Paulo, 1997), de Carmen Lucia de Azevedo, Marcia Camargos e Vladimir Sacchetta. Foi justamente essa trinca de pesquisadores que trouxe à tona a existência de um livro de Lobato anterior a ‘‘Urupês’’ (publicado meses depois de ‘‘O Saci’’, também em 1918), tido como sua ‘‘premiSre’’ editorial até mesmo na obra mais extensa a seu respeito, a biografia ‘‘Monteiro Lobato - Vida e Obra’’, de Edgard Cavalheiro (Cia. Editora Nacional, 1955). Sacchetta explica que ele e as suas duas parceiras ‘‘pescaram’’ a existência de ‘‘O Saci-Perer꒒ na leitura de ‘‘A Barca de Gleyre’’ (1944), obra de Lobato que reúne sua correspondência ao longo de 40 anos com Godofredo Rangel. Nas cartas trocadas com o escritor mineiro, o autor de ‘‘Reinações de Narizinho’’ expõe todos os passos de sua primeira ‘‘reinação’’ editorial.
ReproduçãoQuando escreveu o livro, Monteiro Lobato tinha a preocupação de valorizar o ‘‘duende genuinamente nacional’’No início de 1917, Lobato escreve sobre o saci pela primeira vez para o amigo. Ele já havia publicado na ‘‘Revista do Brasil’’ artigo em que tratava do estranhamento que lhe causava a existência em nossos parques de estatuetas de anões com feições germânicas, ‘‘fato insignificante, mas que demonstra a nossa profunda covardia estética’’.
Agora, anunciava que promovia, nas páginas do ‘‘Estadinho’’ (apelido da edição vespertina do jornal ‘‘O Estado de S. Paulo’’), uma pesquisa de opinião sobre o saci. Nessa pioneira pesquisa do folclore nacional, Lobato fazia três questões (sem pontos de interrogação) aos leitores: ‘‘1º) sobre a sua concepção pessoal do saci; como a recebeu na sua infância; de quem a recebeu; que papel representou tal crendice na sua vida etc. 2º) qual a forma atual da crendice na zona em que reside; 3º) que histórias e casos interessantes, ‘passados ou ouvidos’, sabe a respeito do saci.’’
Lobato recebeu centenas de cartas esmiuçando os contornos do ‘‘duende genuinamente nacional’’. Usando os depoimentos que chegaram de diversas partes do País, mesclados com textos de sua autoria, como a introdução ‘‘Como Surgiu o Saci em São Paulo’’, um prefácio, um epílogo e dezenas de notas e comentários, o escritor editou ‘‘O Saci-Perer꒒. Bem-sucedido inicialmente, o livro sumiu com a mesma rapidez da entidade mítica. O colecionador Pedro Corrêa do Lago, dono de uma livraria em São Paulo com seu sobrenome, onde guarda mais de 60 mil raridades, diz ter encontrado até hoje apenas dois exemplares de ‘‘O Saci’’ (um deles à venda em sua livraria por cerca de US$ 800).
Duas são as razões centrais do sumiço. A primeira é que Lobato não assinou seu nome na capa do livro. A segunda é que, em 1946, o escritor optou (não se sabe por que) por não incluir o já esgotado ‘‘O Saci’’ nas suas obras completas publicadas pela editora Brasiliense (que ainda edita a obra lobatiana).
Com a reedição fac-símile, o saci volta a soltar a fumaça de seu cachimbo nas prateleiras das 5.000 (tiragem da reedição) instituições escolhidas pelo Projeto Memória para receber gratuitamente o livro. Ainda não existem previsões da volta dos pulos do ‘‘insigne perneta’’ (como Lobato o trata muitas vezes) nas prateleiras de livrarias, em edições comerciais.


O livro ‘‘O Sacy-Pererê, Resultado de Um Inquérito’’ é destinado a 5 mil instituições escolhidas pelo Projeto Memória que o receberam gratuitamente. Ainda não existem previsões de edições comerciais a serem vendidas nas livarias.

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