São Paulo, 28 (AE) - Durante o Fiac, as manifestações da cultura cigana ganham outra vertente além da música e da dança: a gastronomia. Povo nômade que fez do mundo sua pátria, os ciganos inspiram alguns chefs de cozinha da cidade. Até o fim do evento, os restaurantes Tambor e Allez e o bar Athílio vão oferecer cardápios especiais para apresentar um pouco dessa cozinha simples, porém saborosa.
Uma das características dos ciganos é a crença na feitiçaria e nas práticas da magia. Há muitos séculos - e talvez até hoje -, os mais supersticiosos acreditavam adquirir poderes por meio da comida. O prato chamado speche, uma mistura de ervas com muito sal, estava associado à preservação do corpo físico da decomposição. Isso porque, segundo os ciganos, o sal é sagrado, um símbolo da vida, e as divindades infernais não podem com sua força.
Rudimentar e barata, a culinária desenvolvida pelos ciganos é resultado da influência de diferentes culturas adquiridas durante as migrações. Esse caráter nômade foi fundamental na utilização dos ingredientes. Segundo o chef francês Pierre Weller, do restaurante Allez, os ciganos - exceto os mais ricos e os que têm moradia fixa - costumam usar alimentos não perecíveis, grãos e pequenos animais de caça ou criação. "Os legumes e verduras de fácil plantio também são consumidos", diz. "Quando criança, tinha curiosidade em saber como era a vida deles."
Os cardápios - O chef conta que os primeiros indícios da existência de ciganos na França datam de agosto de 1419, com o estabelecimento de um grupo em Chatillon-Sur-Chalarone (região de Bresse). "Os grupos mais expressivos até hoje são os manouches, gitons, roma e yeniches", explica. Em seu cardápio, Weller abusa de ingredientes comuns nas mesas ciganas, como o creme de leite, o pimentão e a páprica.
Dois pratos prometem agradar também pela autenticidade, o crepe (chamado pelos ciganos de palacsilta) e o goulash (csards). "Que receberam minha adaptação e apresentação", adianta. Por R$ 39, as pessoas poderão saborear um menu completo
incluindo entrada, prato principal e sobremesa. Entre as delícias, pimentões ao forno marinados em óleo de oliva, com parmesão e filé de anchovas, goulash de frango com páprica e arroz pilav com uvas secas e crepes recheados com doce de damasco e cobertura de chocolate amargo.
Sob o comando da italiana Rossela Giacometti, a cozinha do bar Athílio vai oferecer a cada dia, apenas no bufê de almoço
um prato de inspiração cigana (R$ 12,50). Para compor o cardápio, a chef aproveita a diversidade disponível de grãos. "A comida cigana pode ser definida como do mar, da terra e do ar", afirma Rossela. "Eles caçavam e pescavam seus alimentos." As sugestões que vão revezar-se no cardápio da casa são salada de arroz integral com arroz indiano, salada de grãos (lentilha, grão-de-bico e feijão), cuscuz marroquino, frango ao curry, lombo assado com frutas e peixe com grãos.
Lugar de deliciosa comida contemporânea, sempre preparada pelo chef Carlos Siffert, o Tambor também está em clima de festa cigana. Seguindo as manifestações do Fiac, Siffert vai enriquecer o cardápio com dois pratos: coelho servido com feijão verde e molho do próprio animal e ervas (R$ 22), e compota de frutas secas servida com sorvete de baunilha (R$ 7). Ao contrário do que é de costume - os ciganos tomarem emprestado um pouco da cultura de cada povo -, o chef acredita que essa sobremesa foi incorporada à culinária da Turquia pelos ciganos.

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