O que você faz com as cascas da batata quando está preparando uma refeição? E com os talos e folhas do maço de brócolis que come? As sementes da abóbora são desprezadas? E o bagaço da fruta do suco do almoço? Tudo vai para o lixo. Certo? Se você se identificou com o comportamento acima, não se preocupe, não é o único. Grande parte das pessoas faz o descarte dessas partes não convencionais dos ingredientes sem nenhuma culpa por total desconhecimento e preconceito, sobretudo por questões culturais.
Mas saiba que todos esses itens podem e devem ser usados na culinária. Conhecida atualmente como gastronomia sustentável, o Aproveitamento Integral dos Alimentos (AIA) vai muito além de evitar o desperdício como prática econômica e de responsabilidade ambiental; é, sobretudo, importante para uma alimentação saudável.
Segundo a nutricionista da ONG Banco de Alimentos, Caroline Picolli, o mais preocupante é que o desperdício não ocorre somente na casa do consumidor, mas em todos os setores, desde o plantio, colheita, transporte e venda. Estimativas da entidade apontam que R$ 12 bilhões em alimentos ao ano seja o custo do desperdício somente no Brasil. "Isso equivale a 39 milhões de toneladas de comida por dia jogadas fora; daria para alimentar mais de 19 milhões no País", ressalta. Para dar conta de toda essa "regalia", o país acaba produzindo 25,7% a mais do que precisa para manter seu consumo. "Mesmo com essa produção em excesso, nada chega à mesa do consumidor", rebate.
Apesar das questões sociais extremamente importantes, já que a mudança de postura diminuiria drasticamente a porcentagem de crianças desnutridas e o combate à fome, ela destaca o alto poder nutricional das partes não convencionais. "São alimentos ricos em proteínas, fibras e inúmeras vitaminas que auxiliam no bom funcionamento do organismo e na prevenção e combate de doenças. Além disso, são saborosas, basta saber preparar. É tudo uma questão de mudança de hábito do que se pensa que é comestível."
Pensando nisso, a ONG oferece palestras, workshops, oficinas e tem livros em que apresentam receitas baseadas no AIA. "São cardápios elaborados por nossa equipe que podem tranquilamente ser preparados pelas famílias em casa. São várias combinações bem simples e que desmistificam que essas partes não convencionais são lixo ou para desnutridos."
As receitas vão desde pão de queijo com casca de abobrinha, bolos com casca de abóbora e sucos de talos, como de agrião com limão. Cascas da batata, mandioquinha, nabo, cenoura ou beterraba podem ser assadas ou fritas em óleo quente e servidas como aperitivo, bem como as sementes. Cascas das frutas viram sucos batidos no liquidificador. Os talos de couve, agrião, beterraba, brócolis e salsa contêm fibras e devem ser aproveitados como recheios de tortas, patês ou em escondidinhos.
Para quem quiser ousar, pode até mesmo tentar um prato mais elaborado como o canelone de entrecasca de melancia. "Parece difícil, mas não é. Para este prato, utilizamos a entrecasca da melancia, aquela parte branca, fatiada em lâminas." Estas lâminas são fervidas por cinco minutos em água e sal. Também ferver as uvas passas que, depois, irão no recheio junto com ricota, peito de frango desfiado, creme de leite e salsinha. "Na montagem, é só moldar pequenos bolinhos no formato de um croquete. Enrole, em cada um, uma lâmina de melancia formando um canelone e amarre com a cebolinha. Coloque numa travessa refratária com um molho de sua preferência ao fundo para ir ao forno por cerca de dez minutos. Depois, é só regá-los com o restante do molho." A textura da entrecasca, segundo ela, assemelha-se à do chuchu. "A entrecasca contém o dobro do teor de fibras da parte convencional da melancia, além de ser rica em vitaminas A e C."

Imagem ilustrativa da imagem Sabores - Saudável até o talo
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