A celebração de Páscoa na religião cristã inicia-se no Domingo de Ramos estendendo-se até o Domingo da Ressurreição. Neste dia, geralmente, as famílias se reúnem para comemorar com vários pratos típicos dessa época, tendo o bacalhau como preferido, pelo menos no Brasil. O que muitos desconhecem é que também existe a Páscoa Judaica que, dependendo do ano, coincide com a cristã. Chamada de Pessach, a Páscoa Judaica inicia as comemorações numa data fixada pelo calendário hebraico e segue pelos próximos dias. Este ano, a Pessach vai começar no dia 22 de abril, com seu primeiro "Sêder", uma espécie de cerimônia com refeição carregada de simbolismos que, assim como a cristã, possui suas tradições, que inclui uma gastronomia específica, mas com algumas regras no preparo.
Abraham Shapiro, consultor e coach, que é judeu, explica que os judeus chamam sua Páscoa de Pessach porque, em hebraico, a palavra significa passagem. "Ela representa a travessia pelo Mar Vermelho, quando o povo liderado por Moisés passou da escravidão do Egito para a liberdade na Terra Prometida." Para os cristãos, segundo ele, a Páscoa tem um sentido mais metafísico; representa a passagem de Jesus pela morte. "Dizem, também, os cristãos, que Jesus teria ressuscitado no terceiro dia após sua crucificação. A Páscoa Cristã recebeu o nome da comemoração judaica porque a morte de Jesus de Nazaré aconteceu no início do Pessach, festa que dura sete dias em Israel e oito em outros lugares."
Como recordação dessa liberação e do castigo de Deus sobre o Faraó, foi instituído para todas as gerações o sacrifício de Pessach. "Hoje, a Pessach é uma festa do judaísmo que resgata a conexão entre o povo judeu e sua história. A festa de Pessach é, antes de tudo, uma celebração familiar, em que nas primeiras duas noites é realizado um jantar especial chamado de "Sêder de Pessach". Neste sêder, a história do Êxodo do Egito é narrada e se faz as leituras das bençãos, das histórias da Hagadá, de parábolas e canções judaicas. Durante a refeição, come-se matzá (pão ázimo) e ervas amargas", detalha. Antes do início da festa, os judeus removem todos os alimentos fermentados (chamados hamêtz) de seus lares que também não podem ser consumidos nesse período. Tudo é feito com alimentos e temperos frescos e servido em utensílios especiais, como o "keará", uma louça com vários símbolos.

PRATOS
Em Londrina, não existe nenhum restaurante que ofereça os pratos da Páscoa Judaica. Gentilmente, Josy Kutschenko, esposa de Shapiro, preparou alguns à reportagem. Grande parte, leva poucos ingredientes, apesar disso, são muito trabalhosos e requerem habilidade para serem feitos. Nesses pratos, o matzá, um tipo de pão não fermentado - cuja massa leva apenas farinha de trigo e água - é base para a maioria dos pratos da Pessach, sendo utilizado de várias maneiras, sobretudo triturado em forma de farinha ou pequenos pedaços. Junto com ele, o ovo, que representa o ciclo da vida. Um dos principais pratos é o "Yuch Mit Kneidelach", uma sopa com bolinhas de matzá e ovo. As bolinhas são cozidas em um caldo de frango temperado com endro, que confere um sabor marcante. Este prato é servido quente. As bolinhas devem ficar bem macias.
O "Gefilte Fish" é outro bolinho muito típico da Pessach. Feito de peixe moído com tempero, também leva ovos e farinha de matzá para dar liga e, então, ser cozido no caldo de peixe. Muito macio e saboroso, é servido frio acompanhado de "Chrein", beterraba ralada com raiz forte (rábano), raízes amargas que simbolizam a amargura da escravidão no Egito. "Gefilte Fish" é considerado um prato de feriados religiosos, consumido no sábado (Shabat), no Sêder de Pessach (Páscoa Judaica) e no Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico). Este bolinho pode, ainda, ser consumido com "Fárfel", uma espécie de farofa mais úmida, feita a partir de pequenos pedaços de matzá e ovo. Depois de refogado com cebola, é assado. Pelo sabor mais neutro, pode ser servido em sopas ou como um prato amolecido em água quente.
Ovos de chocolate ou colomba pascal, definitivamente, não entram na lista de sobremesa da Páscoa Judaica, seja pelos ingredientes fermentados ou pelo significado. Em contrapartida, saboreiam uma compota de frutas, que mistura frutas frescas (como maçã e nectarina) e frutas secas cozidas (como ameixas e damasco), arrematadas com "Mazaher", suco de flor de laranjeira, atribuindo um sabor diferenciado. A compota não é muito adocicada, apenas o doce natural das frutas.

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