Sabores - Cervejas ecléticas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de junho de 2016
Magaléa Mazziotti<br>Reportagem Local 
Um gole do quê? Ao direcionar a questão para o segmento das cervejas artesanais, a amplitude da resposta é proporcional à impressionante capacidade de desenvolvimento de novos e ousados rótulos que aguçam a curiosidade até mesmo daqueles que ainda resistem em desfrutar da bebida, que por decreto de lei federal (2314/97) é o resultado da "fermentação alcoólica do mosto (sumo) cervejeiro oriundo de malte de cevada e água potável, por ação de levedura, com adição de lúpulo".
É consenso que o maior concorrente das cervejas artesanais é a ignorância, no caso, excluir da própria existência enquanto degustador um universo de possibilidades muito mais instigante sob o aspecto das sensações proporcionadas ao paladar do que as chamadas comerciais, produzidas pelas gigantes mundiais da indústria de bebidas. Esse argumento já torna legítima a decisão de todo amante da boa mesa de desvendar as propostas de tudo que vêm sendo produzido dentro e fora do país. Há ainda o fato da bebida ter um DNA calcado na alta gastronomia e, em muitos casos, harmonizar com tamanha maestria à refeição que, uma vez conhecida aquela explosão de sabores, passa a ser difícil dissociar tal cerveja de determinado prato.
Outra razão para endossar cada gole a ser apreciado pela vida é a oportunidade de prestigiar a excelência atingida pelas microcervejarias paranaenses, que respondem por 10% de um mercado bilionário no Brasil, e em menos de uma década de atividade garantiram ao Estado o status de expoente do setor no que tange qualidade e criatividade, a ponto de considerarem a região como o "Vale do Silício" da cerveja artesanal. Não é à toa que nos últimos três anos, mesmo diante da perda do poder compra da população, as microcervejarias registraram um crescimento médio anual da ordem de 15%, segundo dados da Associação das Microcervejarias do Paraná (Procerva).
Um dos precursores desse mercado, o proprietário do Templo da Cerveja, William Fleming, que desde 2009 conduz a boutique especializada em cervejas especiais, confirma o ganho de mercado do produto paranaense. "Tenho satisfação em afirmar que muitos dos atuais empresários do setor tiveram a primeira experiência com a bebida no meu Templo. Melhor ainda foi constatar a revolução desse mercado. Se no início, 80% dos produtos oferecidos na minha loja vinham de fora do país, hoje mais de 50% são paranaenses, devido à qualidade espetacular do que é feito aqui, somada ao câmbio desfavorável à importação e o ICMS de 29% cobrado no Paraná. Há também outro aspecto que confere mais competitividade ao consumo do produto paranaense que é a peculiaridade da bebida continuar fermentando e reagindo após estar pronta para o consumo. E nesse caso, quanto mais fresca, mais próxima da data em que é produzida, melhor é a qualidade dessa bebida", indica.
EMBRIAGUE-SE NAS LEMBRANÇAS
O que talvez explique o fascínio notório entre todos os entes desse movimento - apreciadores, fabricantes, donos de estabelecimentos especializados, batenders e mixologistas - é o fato da bebida captar de maneira líquida e engarrafada componentes que somados à história de vida e da construção do paladar de cada consumidor, garante uma experiência única e intransferível. "Mais do que abóbora, quem procura uma cerveja feita com esse aroma, por exemplo, tem em mente o paladar do doce de abóbora com cravo e canela. Tanto os rótulos norte-americanos, que têm esse sabor de cerveja mais habitual, quanto os produzidos no Brasil respeitam isso", informa o proprietário e responsável pela produção e desenvolvimento de produtos da Way Beer, Alessandro Oliveira. "Se prevalecesse apenas o sabor da abóbora, a aceitação provavelmente ficaria comprometida".
Oliveira é conhecido por lançar produtos novos a todo o instante, uma das mais recentes invenções é a CeleryBration, uma cerveja do tipo sour que leva aipo (salsão) na composição. "Sempre me atraiu associar o aipo com insumos defumados e acho que alcancei o sabor que eu procurava nesse rótulo que apresentei no Copenhagen Beer Celebration deste ano e também irá participar do South Beer Cup, que pela primeira vez acontecerá em Curitiba", conta. Com mais de 800 rótulos artesanais oriundos de toda a América do Sul, o concurso revelará os vencedores do 6º South Beer Cup no sábado, no Museu Oscar Niemayer (MON), onde também está sendo realizado o I Festival Paranaense de Cervejas Artesanais. O evento promovido pela Procerva que vai até domingo (dia 12), começou ontem com uma programação intensa sobre o mercado e reservou para o fim de semana atividades para fabricantes e consumidores. "Recomendo aos casais festejarem o Dia dos Namorados com esse delicioso passeio pelo mundo das cervejas. As microcervejarias da Procerva, em conjunto, desenvolveram um rótulo para o festival. Os primeiros a chegarem ao MON no sábado, que abrirá às 12 horas, receberão uma prova dessa cerveja, que leva gengibre, cravo, casca de laranja e é do tipo scotch ale. Uma bebida encorpada e que remete ao quentão para embalar esse fim de semana romântico", atesta o diretor da Procerva, Ronaldo Flor.


