SABORES - Alimente o seu amor
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de agosto de 2016
Célia Musilli<br>Reportagem Local 



Nos tempos da ditadura da magreza, falar em comida é pecado. Falar em comida afrodisíaca pode parecer um pecado maior ainda. Mas o fato é que amar e comer são coisas quase indissociáveis e, neste caso, nem precisa rezar como no filme estrelado por Julia Roberts.
Como lembra a escritora Isabel Allende no livro "Afrodite - Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos", "hoje, os gemidos de amor foram transferidos para as academias." Todos querem emagrecer e nunca se viu tanta gente gemendo nestes espaços, não por prazer, mas de dor.
Com os padrões estéticos contrariando ou não a ideia da boa mesa, o fato é que ninguém resiste a assados, cozidos e refogados que ficam mais especiais ainda se estiverem aliados à ideia de serem excitantes, funcionando como um atrativo a mais para quem pensa de forma sensorial.
Pensar sensorialmente significa usar todos os sentidos e não apenas algumas funções do corpo na hora de apreciar os prazeres. A ideia de comida associada ao amor é antiga, na Bíblia o rei Salomão canta sua amada dizendo: "Comi o meu favo com o mel, bebi o meu vinho com leite". E ela responde derretida: "Eu sou do meu amado, o meu amado é meu." Mais tarde, no Kumaradatta (século 12), a devoção à amada é cantada nos seguintes versos: "Seu hálito de mel aromatizado com cravo/ sua boca deliciosa como uma manga madura."
Levando-se em conta a associação do amor com os alimentos, ninguém estranha que séculos depois existam doces chamados bem-casados ou beijinhos. Mais que isso, uma cozinheira afoita batizou um prato criado por ela de "Galinha do Bom Romance" (receita nesta página).
Não à toa, a natureza se incumbe de dar a flores, legumes e frutos formas sensuais ou que assim parecem a quem tem imaginação. Ninguém nega que uma orquídea lembra os genitais femininos, assim como o pepino é associado ao falo, ainda que possa causar alguma indigestão.
ALIMENTOS E FETICHES
O fato é que comendo e amando nossa fantasia cria asas. A variedade de nomes românticos ou mesmo eróticos que batizam pratos existe na mesma proporção da variedade das posições sexuais. É possível ficar excitado pensando em receitas sensuais como cogumelos na manteiga ou morangos com chantilly - que já entraram para a lista dos fetiches - assim como é estimulante saber que no Kama Sutra o maior manual de sexo de todos tempos existem posições batizadas com nomes poéticos como "Borboleta pousando suavemente no lótus." E que cada um se incumba de imaginar o que é isso.
Existem alimentos que se prestam ao fetiche do poder afrodisíaco sem exigir nenhum preparo mirabolante. É o caso do mel,que aumenta os níveis de testosterona um dos hormônios associados ao prazer - do chocolate, cujas substâncias aumentam o nível da serotonina nos deixando mais felizes, ou da pimenta vermelha que melhora a circulação e aumenta a frequência cardíaca, excitando por tabela os órgãos genitais.
Não por acaso, nossas avós ensinavam as filhas a "segurarem os maridos pelo estômago". O conselho, aparentemente ingênuo, pode estar além das receitas de molhos e macarronadas. O fato é que cozinhar para a pessoa amada de preferência fora da rotina - tem alguma coisa de ritual, com as panelas e outros utensílios soltando cheiros irresistíveis como o do alho frito no azeite, do molho com manjericão ou do café recém coado.
Quando se trata de começar um namoro são também comuns as aproximações se darem pela refeição que funciona como estratégia. O convite para um jantar a dois continua sendo um bom começo, melhor ainda se um dos dois souber cozinhar transformando a cozinha num modo de se aproximar do parceiro. Se a carne queimar ou o massa passar do ponto por alguma distração no percurso entre a mesa e a cama,relaxe. Isso é sinal que a atração é mais forte que o tempero. E nunca é demais lembrar que cozinhar é como amar e precisa também do improviso. Ou seja, a gente até pode seguir as receitas, mas também pode inventar alguma coisa que fuja do script transformando a relação com as panelas ou com o ser amado numa coisa muito mais criativa do que aquele feijão com arroz em que se transformam alguns relacionamentos. A ideia é reunir amor e culinária, ainda que a carne queimada aparentemente os separe.


