SABOR COM PITADAS DE HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de dezembro de 2000
Iara Rossini Lessa De Londrina Especial para a Folha 2 
Um livro de culinária para quem gosta de história e literatura, com generosas pitadas de humor. Assim é Cozinha Brasileira - Com Recheio de História, dos autores Ivan Alves Filho e Roberto Di Giovanni, um historiador e um mestre em culinária, respectivamente. O livro começou a receber seus primeiros ingredientes em 1994, quando Alves Filho participou de uma pesquisa sobre a história pré-colonial do Brasil. Durante o trabalho, o historiador conta que sentiu falta de um estudo mais detalhado sobre as trocas culturais entre o Brasil a Europa e a África, assim Alves Filho escolheu o caminho dos sabores para contar um pouco sobre a construção do Brasil através de 20 pratos típicos da nossa terrinha.
A nossa história culinária começa com a mistura dos temperos indígenas aos sabores portugueses. E dá-lhe moqueca de peixe, uma mistura histórica onde os bons selvagens guaranis ensinaram aos padres jesuítas o preparo do seu moquém (que na língua tupi significa secador), carnes assadas em labaredas. O primeiro a descrever a técnica indígena de preparar o moquém que pode ser feita com qualquer carne, porém é mais utilizada atualmente com peixes foi o Padre Grã, em 1554. O religioso relata que esta é uma das formas utilizadas pelos índios para comer alguma carne humana. Mesmo depois da mudança da dieta nas tribos, o moquém continuou em alta junto com o pirão de peixe, outro prato que colocou no mesmo caldeirão os ingredientes indígenas (principalmente a mandioca) e os sabores portugueses.
O pirão aliás, tornou-se rapidamente popular na corte da época, tanto que o cientista alemão Jorge Marcgrave, que esteve por estas plagas em 1637, relata em seus diários de viagem as maravilhas de uma deliciosa mistura que colocava no mesmo prato uma papa de mandioca, peixe, ervas e pimenta. O prato também foi reverenciado pelo antropólogo Gilberto Freyre, que o classifica de divino. Nunca no Brasil se pintou uma quadro nem se escreveu um poema nem se plasmou uma estátua nem se compôs uma sinfonia que equivalesse a um prato de pirão, escreveu Freyre.
Outro prato considerado genuinamente brasileiro pelos autores é o nosso arroz-de-carreteiro, um prato criado no afã da dificuldade, quando as tropas atravessavam o país levando e trazendo gado e um monte de gente faminta. Um prato de nômades, que foi registrado pela primeira vez em 1869 pelo escritor Visconde de Taunay, autor de Inocência. O prato, que chegou aos nossos dias quase sem modificações em sua receita original, tem equivalentes em diversos lugares do Brasil, como na Bahia onde é conhecido como Quibibe.
A obra, que aposta no texto leve e invarivelmente leva o leitor a dar boas gargalhadas, traz ao final de cada capítulo as receitas originais e como elas foram sofrendo modificações ao longo de nossos 500 anos de história. Para ler, rir e aprender, enfim, uma delícia de livro!
Cozinha Brasileira - Com recheio de História, da Editora Revan, escrito por Ivan Alves Filho e Roberto Di Giovanni, 128 páginas. Preço sugerido pela editora: R$ 15,00.


