O videomaker e cineasta Tiomkim gosta tanto de cinema que trabalha no Museu da Imagem e do Som e mantém na Rádio Educativa FM, à meia-noite das quintas-feiras, um programa dedicado à divulgação de trilhas sonoras de filmes do passado, até aqueles que ainda não chegaram ao Brasil. Paralelamente a essa dedicação obstinada, mantém um dos prazeres que para ele é um dos mais eficazes ‘‘calmantes’’: cozinhar.
A cozinha para ele é tão importante que significa um de seus dois vícios na vida; o outro é ouvir música de cinema. Sendo assim tão próximos, não poderiam estar dissociados quando reúne amigos para jantar, em média uma vez por semana. O culto é invariável: Tiomkim coloca um disco de trilha sonora para tocar, vai para a cozinha e o espaço entre geladeira, pia e fogão transforma-se numa ilha perdida, onde somente ele tem acesso.
‘‘Gosto de ficar a sós; mergulho nos meus pensamentos como um êxtase, e assim, tranquilo, vou cozinhando. Se alguém entra na cozinha, peço que se retire. As pessoas podem muito bem ficar na sala fazendo um drinque, batendo papo. Quando posso, me junto aos convidados, mas tenho que cuidar da comida sozinho’’.
Faz parte do culto a preparação do prato e da mesa, com boas louças, cristais e bebidas honestas. Requinte é um item tão necessário quanto o tempero, na classificação de Tiomkim. Pequenos grupos participam dessas reuniões, por uma questão de espaço. Nas viagens à praia, o círculo é bem maior. ‘‘Toda vez peço para ser o cozinheiro, é uma felicidade. Sinto como uma celebração servir as pessoas’’.
Curiosamente, Tiomkim nega-se a cozinhar só para ele. Fazer refeição sozinho é o símbolo da solidão. Para driblar a armadilha, vira-se com lanches. Outra das marcas do artista: só prepara receitas práticas, que não exijam preparos e ingredientes complicados. Também evita carne vermelha; prefere trabalhar com carne branca e peixes, massas e saladas. ‘‘Sou adepto da tradição de servir um prato único, com acompanhamento. Não gosto de muita coisa junta’’.
Apaixonado pela cozinha, costuma dizer que é uma terapia estar nesse território. ‘‘Desde muitos anos sou leitor assíduo de livros de culinária, e costumo consultar as antigas receitas das tias, avós e amigas. Elas sempre têm uma receita caseira rabiscada em velhos cadernos’’.
Sem se afastar do mundo do cinema, Tiomkim dá ao prato principal a condição de protagonista do jantar. Sem ‘‘desmerecer’’ os convidados, coloca-os como coadjuvantes. Fiel ao costume de preparar comidas sem muita embromação, fez para a Folha um frango imerso num falso molho pardo. É um de seus favoritos, daqueles que tranquilamente podem ser indicados ao Oscar.
Frango ao falso molho pardo
1 quilo de peito de frango, em pedaços, ou sobrecoxa sem pele
1 envelope de sopa de cebola
1 litro de cerveja preta
Numa panela larga coloque metade do envelope de sopa de cebola. A seguir, os pedaços de carne, e sobre eles o resto da sopa de cebola. Despeje a cerveja preta, tampe a panela e deixe cozinhar em fogo brando por cerca de 20 minutos. Só mexa de vez em quando, após levantar a fervura, para evitar que grude. Não é preciso adicionar sal à receita. Acompanha arroz branco e salada verde.

mockup