Sábio senhor dos pincéis
Iara Lessa
De Londrina
Especial para a Folha2
Um pouco cansado da viagem que o trouxe a Londrina, mas sempre às voltas com tintas e traços, o artista plástico baiano Waldomiro de Deus, o grande destaque da 14ª Mostra Afro-Brasileira Palmares, aberta ontem em Londrina, dá uma força para a organização do evento e retoca uma máscara gigante. É preciso ajudar as pessoas. Quando tanta gente se une para promover a cultura, ajudar, mesmo que seja varrendo uma sala, é sempre um prazer, diz voluntarioso o artista.
A simplicidade deste artista primitivista que, com 37 anos de carreira, mais de 2,5 mil telas produzidas e obras espalhadas em museus da Itália, França, Estados Unidos, Bélgica, Israel e Iugoslávia, impressiona.
Sempre simpático, Waldomiro vai contando como chegou até aqui. Saga aliás, que deve em breve chegar às livrarias, já que o crítico paulista Oscar DAmbrosio finaliza a obra, Os pincéis de Deus: a vida e a obra do pintor naif Waldomiro de Deus, com lançamento previsto para o dia 15 de dezembro. O livro, com 250 páginas, dá uma geral na complexa carreira deste artista autodidata.
Vida dura, mas cheia de conquistas. Waldomiro deixou a Bahia aos 10 anos. Seguiu para Minas, onde permaneceu por um tempo. Certo dia, Waldomiro montou em um pau-de-arara e foi para São Paulo, tinha apenas 12 anos e nenhum dinheiro no bolso. Quase não tinha bolso, brinca. Virei um menino de rua, até que um policial da guarda municipal ficou com pena de mim e me levou pra morar em Osasco. Virei engraxate, conta o mestre pintor.
Autodidata, nas horas vagas e com o dinheiro da graxa, Waldomiro enchia cartolinas e cartolinas com desenhos de bichos, casas, cenas da cidade. Começava a tomar gosto pela coisa. Virou jardineiro, mas como pintava durante toda a noite, o patrão acabou mandando Waldomiro passear. O artista não teve
dúvidas. Pegou as 32 telas que produziu durante suas noites de insônia e foi para o Viaduto do Chá. Era a primeira exposição individual do artista. Que, de lá pra cá, não parou mais de vender seus trabalhos.
Descoberto pelo crítico Mário Schenberg na década de 60, ficou amigo de personalidades como Pietro Maria Bardi, então diretor do Museu de Arte de São Paulo (MASP), e o artista Alfredo Volpi. Waldomiro tinha apenas 18 anos e seu trabalho começava a explodir. Participou da 9ª Bienal de São Paulo, os convites para exposições em diversas partes do mundo começaram a surgir. Morou em Israel, na França, na Bélgica, enfim, correu o mundo mostrando seus traços e suas cores.
Irreverente, ousado, dono de um fino senso de humor, apontado pelo apresentador Jô Soares como o artista de tema e traçado divertidos, Waldomiro explora assuntos diversos. Planetas, foguetes, festas populares, mulheres jovens em contraste com mulheres velhas, cenas de rua, relações de trabalho.
Tudo serve aos propósitos deste artistas que no final da década de 60 quase foi excomungado pela Igreja depois de pintar a Nossa Senhora de Minissaia. A tela rendeu muitas dores de cabeça ao artista. A tela estava exposta em uma galeria em Santos. Alguns padres organizaram uma passeata contra a exposição. Tive que sair fugido, correndo pelas ruas com uma multidão enfurecida atrás de mim. Cheguei quase a apanhar. A galeria fechou a exposição e muita gente ainda fala disto, até hoje, conta. Depois da santa de saia curta ainda vieram outras obras polêmicas: Jesus de Bermuda e São Pedro Tocando Guitarra.
Toda esta correria só adiantou a hora do batismo de fogo para Waldomiro. Com a cara e a coragem, em 1969, pegou 20 telas e foi rumo à Europa. Não foi difícil colocar os trabalhos na galeria Antoinette, em Paris. Mais difícil para Waldomiro foi entender que aquele homem estranho, com um bigode mais estranho ainda, que o agarrou e lascou um beijo durante a exposição era Salvador Dalí, o mestre do surrealismo que se rendia ao seu talento. Só depois é que soube que ele era um grande pintor, conta divertindo-se. A exposição ainda recebeu a visita do escritor italiano Umberto Eco e da atriz francesa Brigitte Bardot. Foi a glória para Waldomiro e também o reconhecimento que faltava para se tornar realmente famoso no Brasil.
Depois de encantar Paris, o passaporte de Waldomiro ficou cada vez mais carimbado. Diversos países queriam abrigar mostras com as telas de Waldomiro. Artistas naifs do mundo inteiro queriam conhecer o mestre brasileiro, que passou muitas horas de sua vida entre vôos, alfândegas, línguas estrangeiras, hotéis. Agora quero é ficar mais no Brasil. Cada cidade do interior que conheço é uma ótima surpresa. Londrina, por exemplo, não fica devendo nada para uma cidade da Europa. Temos aqui pessoas bonitas, interessadas em promover a arte e a cultura. E não é diferente dos lugares onde estive. Por isso, chegou a hora de ficar mais por aqui, pelo Brasil, talvez até, ganhar mais dinheiro, revela o mestre, que sempre viveu de arte.
Talvez se eu fizesse alguma coisa mais decorativa já estivesse rico, mas ficar rico não é meu objetivo de vida. Tenho uma família maravilhosa e pude dar tudo o que é importante para eles. É isto que vale. Trabalhar com liberdade, fazer contato, conhecer pessoas, se encantar com lugares. O dinheiro é apenas uma consequência, ensina o mestre.
14ª Mostra Afro-Brasileira Palmares - exposição que reúne mais de 100 trabalhos temáticos de cerca de 30 artistas sobre o papel do negro e o preconceito em nossa sociedade. A exposição acontece na Secretaria Municipal de Cultura de Londrina (Praça 1º de Maio, 110) até o dia 11 de dezembro.Uma saga. Assim pode ser resumida a vida do artista plástico Waldomiro de Deus, uma das referências mundiais da arte primitivista
Josoé de CarvalhoMestre em todos os sentidos, Waldomiro de Deus, que tem obras espalhadas em vários países, vai ganhar em breve uma biografiaReprodução/Josoé de CarvalhoDivulgaçãoVivendo e AmandoDivulgaçãoUm Voto por Vinte Reais





