Ruy Guerra vai filmar Estorvo
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sexta-feira, 17 de janeiro de 1997
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
ReproduçãoRadicado no Brasil desde os anos 60, o português Ruy Guerra é um marco do Cinema NovoHá sete anos sem filmar, o cineasta Ruy Guerra está com a corda toda em 1997. Deve iniciar logo a rodagem da sua adaptação do romance de Chico Buarque, Estorvo. Depois, emenda com outra adaptação - a de Quase Memória, de Carlos Heitor Cony. Ainda espera ter fôlego para terminar o roteiro de US Navyque está escrevendo com seu amigo Gabriel García Márquez. E não é tudo: sua ex-mulher, Cláudia Ohana, anuncia que vai produzir e interpretar até o fim do ano um épico sobre Anita Garibaldi. E quem ela espera que vá dirigi-la? Ganhou um doce quem apostou em Guerra. Para completar, o ano começa com um pacote de vídeos da Paris contendo dois filmes do diretor.
Um é lançamento: A Bela Palomera. Outro é relançamento, pois já fazia parte do acervo da Globo Vídeo: Ópera do Malandro. Uma adaptação de García Márquez e outra de Chico Buarque. Duas vezes Ruy Guerra. Palomera tem embalagem cuidada, mas a história do escrevinhador que se apaixona pela bela criadora de pombas, rodada nos cenários de Paraty, resulta um tanto decepcionante, por mais estudada que seja sua simplicidade, diante do onirismo de Erêndira, que o diretor também realizou baseado em García Márquez. A Ópera é de outro quilate e ambição.
A abertura é um delírio cenográfico digno de Francis Ford Coppola em O Fundo do Coração. Você, com certeza, vai ver e rever no seu vídeo o extraordinário movimento de câmera que, partindo da tela de um cinema que exibe o clássico Scarface, de Howard Hawks, recria, em estúdio, a Lapa antiga, aquela em que o malandro é surpreendido ao roubar o dinheiro da bolsa da prostituta que dorme ao seu lado num quarto de hotel. É um momento notável - o mais notável do filme. De resto, é uma experiência ousada: encenar, com sotaque brasileiro, um musical como os de Hollywood ou da Broadway, já que a origem teatral está sempre presente. E não é um musical tradicional, mas uma tentativa de abrasileirar o gênero.
Com Garcia
Marquez, ele
está escrevendo
US Navy
DiluiçãoDe Brecht a Chico Buarque e Guerra, a Ópera dos Três Vinténs sofreu uma progressiva diluição. O que Brecht concebeu como uma parábola sobre os jogos sujos do capitalismo vira um golpe do baú com Chico e Guerra - o golpe do cafetão Max, que troca o amor da prostituta Margot pela união de conveniência com a jovem Ludmila, de olho na fortuna do sogro alemão. Embutida na história está uma crítica da influência da cultura americana no Brasil em plena época do nazificado Estado Novo.
Na época do lançamento, o filme foi chamado de musical teutônico, provocando irritação do diretor. Dessa maneira os críticos reclamavam dos defeitos mais evidentes da Ópera: o filme é pesado, o roteiro mal alinhava os 16 números musicais, alguns deles antológicos como O Meu Amor e Pedaço de Mim, e os atores deixam a desejar, como dançarinos e cantores (menos Elba Ramalho, no segundo item), forçando o cineasta a tentar consertar na montagem as falhas da coreografia.
Mesmo quando desanda e perde o pique, a Ópera nunca é menos que interessante. Um filme também pode ser admirado pelo empenho da produção. A Ópera é notável nos quesitos cenografia e fotografia, valendo destacar o uso que Guerra faz de ambas. Há momentos em que o espectador tem a impressão de estar vendo um filme preto-e-branco em cores, de grande beleza.


