Ruth Escobar alterou a rota do teatro
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sexta-feira, 06 de outubro de 2017
Leandro Nunes<br>Agência Estado 
Morreu na tarde de quinta, 5, aos 81 anos, a atriz e produtora cultural Ruth Escobar. Ela sofria de Alzheimer e estava internada no Hospital 9 de Julho, em São Paulo. O velório começou ainda na tarde de quinta, no teatro que leva o seu nome.
Demolir parte de seu teatro, criando um vão livre de 20 m de altura, foi uma das medidas tomadas para que Ruth colocasse o Brasil no mapa da vanguarda teatral do mundo. O feito realizado em 1969, com a estreia de "O Balcão", dirigido pelo argentino Victor Garcia, rendeu elogios do próprio autor, o francês Jean Genet, que a considerou a melhor montagem de seu texto. Sobre o legado de Ruth ao teatro, o ator Juca de Oliveira diz: "Ela nos lançou à modernidade, dentro e fora dos palcos."
A carreira da protagonista de mais de 30 espetáculos não se restringiu apenas ao teatro e alargou-se pela produção cultural e pelo ativismo político. Em 1951, a portuguesa aportou no Brasil e no fim da década foi estudar interpretação na França, ao lado do marido, o filósofo, dramaturgo e poeta Carlos Henrique Escobar. Quando retorna, cria o Novo Teatro, companhia que estreou com a peça "Mãe Coragem e Seus Filhos", de Brecht, em 1960, um fracasso de bilheteria.
Nada disso tirou o ânimo da artista, que brilhou ainda mais em 1964, com a criação do Teatro Ruth Escobar, palco de resistência que abrigou as memoráveis peças "A Ópera dos Três Vinténs", também de Brecht, e "Roda Viva" (1968), de Chico Buarque, em plena ditadura. Nesta última, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o teatro, destruiu equipamentos e agrediu os artistas, entre eles Marília Pêra, que dividiu a cela da prisão com Ruth.
Juca de Oliveira lembra a força e coragem mostradas por Ruth durante o velório do jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975. "Ela fez um discurso emocionante pela resistência e em prol do amigo torturado. No fim, deu um brado contra a ditadura e temíamos que ela fosse encarcerada ali mesmo."
Nessa época, seu Festival Internacional de Teatro já estava a todo vapor. Criado em 1970, o Brasil teve a chance de testemunhar trabalhos de nomes como Bob Wilson e Jerzy Grotowski. "Com Ruth não havia portas fechadas", afirma o ator Fúlvio Stefanini, que contracenou com ela em "O Versátil Mr. Sloane", de 1966, do inglês Joe Orton. "Sua convicção não tinha limites. Ruth avançava sem medo e tinha um grande poder de agregar pessoas. Foi uma desbravadora."
Ruth também atuou na política e foi eleita deputada estadual em 1983 e 1987, sendo expulsa do partido por apoiar o empresário Antônio Ermírio de Moraes, do PTB. Em 2011, diagnosticada com doença de Alzheimer, teve o patrimônio interditado, a pedido da filha Patricia, que passou a ser gerido por um escritório de advocacia. Mais tarde, Patricia chegou a pedir ajuda, apontando negligência na administração.


