Russian National Orchestra traz a glasnost a São Paulo
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domingo, 28 de novembro de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 28 (AE) - Um fruto do florescimento do capitalismo na ex-URSS que deu certo: a Russian National Orchestra (RNO), a primeira orquestra russa independente do governo. Criada em 1990, com o apoio de Gorbachev, o grupo foi criado pelo maestro e pianista Mikhail Pletnev como um fundação privada, dirigida por um grupo de administradores russos em parceria com, pasmem, patronos externos como Exxon, Cargill, Chevron, entre outras multinacionais. Bem, com certeza, uma iniciativa que deve ter feito a múmia de Lenin sacolejar na Praça Vermelha, mas que os músicos e o público aplaudiram. Você fará o mesmo, terça e quarta-feiras, nos concertos do conjunto em São Paulo, num programa que reúne obras de Glazunov, Scriabin
Mussorgski e Tchaikovski.
"Artistas sempre deram sua contribuição para provocar crises na cultura em todo o mundo e já estava na hora de darem algumas soluções", brinca Pletnev, definindo a importância da criação da RNO. "Um exemplo que pode ainda render o nascimento de outras orquestras, bastando para isso alguém que tenha energia, capacidade e dinheiro", ressalta o maestro. Uma mistura simples, mas capaz de reter o fluxo de talentos russos para o exterior, um mal que quase dizimou os melhores grupos musicais do país.
"Hoje, além de dar condições de trabalho dignas e estímulo artístico para seus membros, a RNO mantém um programa de educação musical para jovens, a fim de que não sequemos a extraordinária fonte de talentos que temos a sorte de ter aqui"
diz o diretor executivo da orquestra, Sergei Markov. "Ainda assim, gostaria que a cultura russa estivesse em melhores condições, mas boa parte dela depende de apoio governamental e, logo, sofre com a crise econômica que o país enfrenta", completa o empresário. Isso explica por que a RNO se transformou num oásis para os músicos russos.
"Além de dinheiro e oportunidades, eles encontram também um ambiente profissional mais democrático, algo impensável nos velhos tempos autocráticos da URSS", afirma o regente. "Todos são tratados com respeito e devolvem essa cortesia entregando ao maestro o melhor de suas habilidades artísticas", faz coro Markov. Por isso, Pletnev é irônico quando lhe perguntam sobre as diferenças entre grupos musicais russos e ocidentais: "Agora, só existem boas e más orquestras; aquelas que querem trabalhar duro e as que não o fazem." O mesmo vale para a tal falada "alma russa". "Capaz de muitas coisas, entre essas produzir som correspondente à natureza e ao estilo das peças musicais", explica o maestro.
Não sem razão, a RNO foi convidada, em 1997, pelo governo russo a celebrar os 850 anos de Moscou com um concerto na Praça Vermelha, que reuniu Pavarotti e Kissin e foi a representante oficial do país nos jogos olímpicos de Atlanta, em 1996, bem como o primeiro conjunto russo a tocar no Vaticano e a fazer uma turnê por Israel. Movida a livre iniciativa, a orquestra transformou-se num assunto de Estado (ainda que seja oficialmente desvinculado deste), um símbolo do que se pode conseguir na Rússia se os empresários ocidentais resolverem abrir suas carteiras ao talento das estepes.
Para tanto, Pletnev vem experimentando o lado menos glamouroso da liberdade capitalista, pressionado por selos fonográficos e por empresários de concertos, que o obrigam a tocar um repertório de obviedades russas, quando gostaria de fazer experimentos mais ousados. O programa brasileiro, com Scriabin, é uma deliciosa exceção à regra de tocar surrados cavalos-de-batalha. "Os músicos têm de fazer música para o público e não para eles mesmos", tenta justificar Markov. O mau humor de Pletnev, como revelam algumas de suas entrevistas, parece indicar outras filosofias.
Tendo iniciado sua carreira ainda menino, estudou piano, composição e regência. Em 1978, ganhou, com apenas 21 anos, o Concurso Tchaikovski e partiu para o Ocidente, tendo estreado nos EUA em 1979. Odeia quando se tenta comparar seu piano à sua regência. "Esse é o assunto favorito dos críticos e eu não falo sobre ele para não lhes tirar o ganha-pão", ironiza.
Serviço - Russian National Orchestra. Regência de Mikhail Pletnev. Terça e quarta, às 21 horas. De R$ 105,00 a R$ 150,00. Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, em São Paulo, tel. 0--11 5693-4000. Patrocínio: Alfa Romeo, Votomassa, Oracle e Banco Alfa. Apoio: Hotel Transamérica, O Estado de S. Paulo, Ministério da Cultura e Prefeitura do Município de São Paulo.


