São Paulo, 20 (AE) - Criador de espetáculos premiados como Katastrophé e Fim de Jogo, Rubens Rusche volta aos palcos paulistanos na direção de Barca dos Mortos, com texto do dramaturgo alemão Harald Muller, que estréia amanhã (21) no porão do Centro Cultural São Paulo (CCSP). No elenco, dois atores já premiados sob direção de Rusche - Magali Biff, Prêmio Shell de atriz em K..., e Antônio Galleão, Prêmio Mambembe por Fim de Jogo - e ainda Antonio Petrin e Roberto Lobo.
A ação transcorre no século 21 após uma catástrofe de dimensões avassaladoras que destruiu inteiramente a Terra. Rios, solo, alimentos, animais e seres humanos estão química e radioativamente contaminados. Nesse ambiente devastado, quatro personagens, três homens e uma mulher se unem para encontrar uma região preservada, que eles imaginam existir.
Embora a peça nada tenha de interativa, o público vai contaminar-se com a atmosfera do espetáculo antes mesmo de seu início, graças ao cenário/instalação criado por J.C. Serroni. Ao entrar no porão, o espectador passa por um longo corredor repleto de restos de computador, roupas e sapatos empilhados, livros queimados e toda a espécie de sucata de uma civilização extinta.
"Foram 24 caminhões-baú carregados", conta Serroni. Mas engana-se quem pensa terem sido jogados ali aleatoriamente. "Roupas, livros, lixo hospitar, tudo passou por um tratamento, além de terem sido dispostos de forma organizada, como uma espécie de arquivo morto", explicou o prestigiado cenógrafo. A trilha sonora especialmente composta pelo músico Lívio Tragtenberg será ouvida já no corredor. "O trabalho do Lívio é brilhante", comenta Rusche. Sem fugir da atmosfera do espetáculo, a trilha foi criada a partir de fragmentos distorcidos de obras de compositores como Vivaldi e Strauss.
Também feita de fragmentos é a linguagem de Checker (Galleão)
primeiro personagem a entrar em cena. Misturando expressões em várias línguas com outras criadas por ele, sua linguagem parece ser formada de palavras catadas num lixão de culturas. Se a linguagem é precária, ele a compensa com o uso da força física ao deparar-se com o segundo personagem, Tai (Roberto Lobo), um clone criado para ser doador de órgãos.
Ao partir em busca de Xantem, encontram Cuco (Antônio Petrin), um velho do século 20, capaz de lembrar-se e imitar o som dos pássaros, daí seu nome. Biuti (Magali Biff) é a última personagem a juntar-se ao grupo e ganha esse nome de Checker por ser bonitinha. "É a mulher e sua barca, misto de berço e túmulo
uma bruxa arquetípica que vai provocar a transformação dos personagens", afirma Rusche, que vê como maior mérito do texto sua proposta de reflexão sobre a ética, a cidadania e a arte. E destaca ainda o humor. "Sua estrutura lembra as histórias de saltimbamcos."
Na segunda-feira, às 20 horas, Mueller vai falar sobre sua visão da arte e a inserção de sua obra na dramaturgia alemã, no porão do CCSP. O encontro é gratuito, o espaço abriga 160 pessoas e as senhas podem ser retiradas com uma hora de antecedência na bilheteria do teatro. Barca dos Mortos. Drama. Texto de Harald Mueller. Direção de Rubens Rusche. Com Antonio Petrin, Antonio Galleão, Roberto Lobo e Magali Biff. Duração: 1h40. Quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 12,00. Centro Cultural São Paulo - Espaço Ademar Guerra. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611

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