RUMO À
TERCEIRA
DIMENSÃO
A animação gráfica em 3-D ganha espaço em projetos comerciais e artísticos
Ranulfo Pedreiro
Milton DóriaClaudinei Rodrigues: ‘‘O objetivo do nosso curso é trabalhar a criação para que o aluno conheça o processo da imagem’’Trash é um punk de cabelo moicano que adora pichar muros e tem dificuldades em fazer amigos. Reduzido a cartoons bidimensionais, Trash agora terá a oportunidade de ganhar movimentos e, quem sabe, chegar à terceira dimensão. É que seu criador, Alison Vieira da Silva, de 16 anos, está fazendo um curso de animação na Usina do Conhecimento, órgão governamental inaugurado em julho de 1997 em Londrina. Com o curso, há grande possibilidade de que Trash deixe o papel para ocupar as telas.
Mas, para chegar ao movimento, Alison terá que aperfeiçoar seu desenho e aprender muito. Por isso, no curso, ainda está desenhando histórias em quadrinhos, para depois aprender técnicas básicas de animação e, quem sabe, chegar ao computador.
Milton DóriaAlunos do curso da Usina do Conhecimento: tecnologia e artesanato andam lado a lado na concepção de idéias tridimensionaisDo outro lado da cidade, Paulo Eduardo Carvalho Ramos está compenetrado em seu escritório com a criação de uma vinheta para uma campanha filantrópica. Na tela do computador, uma mão encaixa a última peça que falta em um quebra-cabeça, formando a imagem de uma criança. Paulo Eduardo é profissional da área de animação gráfica e possui um bom equipamento para desenvolver seus trabalhos.
Ambos, Alison e Paulo Eduardo, desejam realizar projetos artísticos com animação. E ambos se encontram em dois extremos de um trabalho que vem se desenvolvendo com grande velocidade e é cada vez mais solicitado. No curso da Usina de Conhecimento, ministrado por Claudinei Rodrigues, Alison desenvolve o desenho para um dia chegar ao computador. Paulo Eduardo trabalha com o computador, mas começou assistindo a clássicos de desenhos animados. Tecnologia e artesanato andam lado a lado na concepção de idéias tridimensionais.
‘‘O objetivo do nosso curso é trabalhar a criação para que o aluno conheça o processo da imagem. Nós vamos criar histórias em quadrinhos, depois vamos partir para a animação e posteriormente entrar na animação gráfica’’, comenta Claudinei Rodrigues, artista gráfico formado pela Unopar que ministra o curso de animação para cerca de 20 crianças e adolescentes.
As aulas estão previstas para oito meses, mas podem ser prorrogadas para abranger temas como discurso fonográfico e introdução ao cinema. ‘‘A idéia é descobrir talentos e gerar multiplicadores, pessoas que ensinem essas técnicas’’, ressalta Claudinei.
O professor aceita a grande utilização que se faz do computador na área. ‘‘Mas o mais importante é fazer com que as pessoas não tornem o desenho um lixo visual. Por isso oriento os alunos para tomarem cuidado’’, assegura, lembrando que a animação está ganhando espaço em várias áreas, como na arquitetura, em que os profissionais usam a técnica para apresentar e desenvolver projetos.
Para Alison, que já desenhava antes do curso, a oportunidade foi um achado: ‘‘É uma coisa nova, o desenho me encantava na TV e agora estou surpreso, pois no futuro vou fabricar o que me encanta. Pretendo ser um profissional dessa área’’. Ainda na infância, Alison desenhou uma história sobre o Lobo Mau que agradou quem viu. ‘‘Todo mundo gostou, e eu não parei mais. Passei a criar meus próprios personagens, pois é errado copiar.’’
Paulo Eduardo Ramos também foi influenciado pelos desenhos animados. Com cinco anos assistiu a um episódio de ‘‘Disneylândia’’, que ensinava algumas técnicas de animação. Com plástico e canetinhas, ele tentou compor seus primeiros trabalhos. Aos 16 fez curso sobre linguagem cinematográfica e passou a trabalhar com cinema e vídeo. Em São Paulo conheceu a projeção audiovisual, feita na época com 12 projetores de slides que, projetados em sequência, davam a ilusão de movimento.
De volta a Londrina, entrou no curso de computação gráfica da Unopar e foi conhecendo ferramentas como o Paint Brush, scanners, o Animator Pro 1.0, e o Fanta, que tinha uma paleta com apenas 16 cores, tudo em computador 386. ‘‘Aí fui desenvolvendo, sou praticamente autodidata. Com o tempo, o preço dos equipamentos diminuiu e fui adquirindo material, ao mesmo tempo em que comecei a trabalhar com 3-D’’, recorda.
Milton DóriaTrabalho de alunos: intenção, segundo o professor, é descobrir novos talentos e gerar multiplicadoresEm seguida montou a Animatec, que considera a primeira empresa londrinense de animação gráfica constituída como pessoa jurídica. Atualmente, Paulo Eduardo desenvolve projetos pessoais e ainda atende a produtoras, agências de publicidade e diretores.
No computador, Paulo desenha os frames, que são as imagens que, reunidas, dão a sensação de movimento. São necessários 30 frames para um segundo de animação de qualidade. ‘‘Se uma sequência dá errado, ou um movimento fica torto, dá para modificar e recomeçar no computador. Na animação clássica você desenha à mão todos os frames. Se o movimento ficou estranho, você tem que redesenhar tudo’’, explica.
A animação em 3-D foi tema da tese de graduação de Paulo, que adaptou uma história em quadrinhos da Luluzinha. Para isso, ele teve que trabalhar todo o desenho para que ganhasse três dimensões. ‘‘Para conseguir um nível desse em animação clássica, você precisa de vários desenhistas. No computador você faz tudo sozinho com a metade do tempo’’, esclarece, observando que um ilustrador tem que desenhar 900 frames para gerar uma sequência de animação clássica de 30 segundos, com alta qualidade.
‘‘Há animadores em 3-D que garantem que é melhor ter um desenho detalhado com movimento rústico e outros preferem um desenho pouco aprimorado com movimento desenvolvido. Isso dá briga. Tem animador ganhando prêmio com rabiscos de papel. Às vezes uma animação desta ganha de uma grande montagem detalhada’’, ressalta.
Um dos projetos que Paulo Eduardo está desenvolvendo é o ‘‘Caravelas’’, voltado para os 500 anos do descobrimento do Brasil. O desenho vai participar do projeto ‘‘O Ano 2000 em 2000 Frames’’, do animador Daniel Schorr, uma homenagem dos animadores à virada do milênio, que promete reunir profissionais de vários países.
Eliza Gerais Greca, coordenadora do curso de Educação Artística com ênfase em computação gráfica da Unopar, afirma que o computador é apenas uma ferramenta de trabalho: ‘‘Os animadores ainda utilizam o desenho clássico para realizar as animações. A arte final sai do computador. Quando chegou a máquina fotográfica, muita gente pensou que o desenho e a pintura iriam desaparecer. Ninguém vai deixar o lápis por causa do computador. Mas a animação em 3-D está sendo utilizada cada vez mais e o mercado também está crescendo bastante, pois a procura é grande’’.
A animação em 3-D também é apontada por Paulo Eduardo como a principal vertente do futuro dos desenhos animados. ‘‘A tendência é criar personagens novos, como ocorreu no longa-metragem ‘Toy Story’. Os equipamentos e os softwares vão ficar mais baratos, os estúdios vão crescer e a produção será toda em 3-D.’’ Nada impossível então, para o punk Trash, chegar às três dimensões.

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