Rumo à Estação Wilson
Rumo à Estação Wilson
Biografia reconstitui a intensa vida e obra do intelectual Edmund Wilson.
O crítico literário norte-americano Edmund Wilson (1895 - 1972) dizia que havia algo mais para nos interessar na vida privada dos grandes homens do que o simples desejo e espiar aquilo que não é da nossa conta. Palavras suas: Um grande escritor, por exemplo, representa uma especial concentração de propósito e sensibilidade. Ele tem mais consciência das coisas que se passam em seu tempo e é mais articulado em relação a elas. É levado a assumir mais claramente uma atitude de confronto com o mundo em que vive. O que seu trabalho mostra ao público não é a história toda, pois existem sempre os arranjos artificiais no interesse dos ideais. A verdadeira batalha do ideal com o atual só pode ser vista de perto, nas relações e vicissitudes da própria vida do homem.
Depois de sua morte em 1972, aos 77 anos de ideologia, literatura, álcool e mulheres, era de se esperar que sua própria vida seria alvo de, usando suas próprias palavras, uma espionagem biográfica.
Edmund Wilson - Uma Biografia, lançado pela Editora Civilização Brasileira, é obra do experiente biógrafo Jeffrey Meyers. O livro completa sua trilogia sobre escritores norte-americanos que teve início com Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald. O acadêmico Jeffrey Meyers já biografou grandes personalidades do universo literário como Katherine Mansfield, Edgar Allan Poe, Joseph Conrad e Robert Frost.
Dono de uma obra quilométrica (50 livros publicados) e considerado um dos grandes intelectuais da cultura norte-americana do século 20, Edmund Wilson foi ao mesmo tempo erudito, radical, polêmico e controvertido. Desenvolveu uma crítica literária que avançou além da literatura. Escreveu sobre artes plásticas, música, cinema, teatro, cultura popular, história, movimentos políticos e sociológicos, viagens, índios norte-americanos, comunismo, guerras, movimentos revolucionários, memórias, romances, poesia, peças teatrais, textos jornalísticos, etc. Para Jeffrey Meyers, foi um mestre do ensaio biográfico, um dos grandes cronistas de sua época - embora não escrevesse crônicas.
Com forte formação erudita - lia e falava oito idiomas - morou na Europa nos anos 20 e 30, onde conheceu Joyce, Eliot, Lawrence, ONeill, Hemingway, Faulkner, Igor Stravinsky e Charles Chaplin. Foi amigo íntimo de Nabokov, Fitzgerald, John Dos Passos, Malraux, Auden e Lowell. Com uma grande coleção de amantes, chegou a escrever textos eróticos, queimados em praça pública na década de 40. Seu fraco era o álcool, que consumia em baldes. Teve problemas com sonegação de impostos e acabou processado pelo governo norte-americano.
Obras Entre seus livros mais conhecidos estão O Castelo de Axel, escrito em 1930 (publicado no Brasil pela Editora Cultrix), e Rumo à Estação Finlândia, escrito em 1940 (lançado aqui pela Editora Companhia das Letras). O primeiro apresenta no ensaios sobre nove escritores que, segundo Edmund Wilson, são os responsáveis pela literatura imaginativa. Trabalhando entre o período de 1870 e 1930, Wilson enfoca Arthur Rimbaud, James Joyce, Marcel Proust, W. B. Yeats, e outros. O segundo é um vigoroso estudo ideológico-literário sobre origens e desenvolvimento do marxismo, bem como dos caminhos do socialismo. Traçando a história das idéias que levaram à Revolução Russa, ergue uma crítica à crescente centralização de poder pós-revolução.
Cultuado por escritores como Gore Vidal e John Updike, foi considerado um poderoso protetor da cultura literária norte-americana. Nos dias de hoje suas idéias, posições estéticas e ideológicas, são consideradas velhas e ultrapassas pelo novo escritores. Sobre isso, seu biógrafo argumenta que Edmund Wilson parece ter saído de moda porque o humanismo que ilumina seus livros se perdeu. Desapareceu devido ao conformismo ideológico que ele combateu durante toda a vida. Para exemplificar cita um profético texto de 1938: Os jovens não são entusiastas dos livros hoje em dia: limitam-se a aprovar aqueles a eles se ajustam politicamente. É uma pena que não aprendam a ler por prazer. Acabariam por perceber que a convivência com as obras de arte e o pensamento é a única segurança que têm contra o crescente barbarismo de nosso tempo.
(M.L.)
q Edmund Wilson - Uma Biografia - de Jeffrey Meyers, Editora Civilização Brasileira, tradução de Fausto Wolff, 686 páginas, R$ 52,00.





