Ruínas da colônia espanhola
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domingo, 27 de setembro de 1998
Agência Estado 
DivulgaçãoDetalhes do que sobrou das construções: as reduções eram verdadeiras cidades organizadas para controle, defesa e catequização do índioDa história da colonização portuguesa no Brasil, os resquícios são muitos. Cidades inteiras como Ouro Preto e Salvador, centenas de engenhos e milhares de igrejas. Do domínio espanhol, no entanto, muito pouco é conhecido. Certamente isso se deve ao fato de a Espanha ter dominado somente um pequeno trecho do País, uma região de menos de 250 km2 de extensão no extremo sul do Brasil, na divisa com Paraguai e Argentina. Mas, nesta mínima área, existe um patrimônio cultural da humanidade ignorado pelos turistas estrangeiros e, até mesmo, pelos locais: as ruínas das missões jesuíticas, também conhecidas como reduções.
Em território brasileiro, são sete cidades - ou sete povos das missões. Mas, ao todo, há 30 reduções na região. Elas faziam parte da Província Jesuítica do Paraguai, criada em 1607, ao norte do Rio da Prata, a maior ação social e cultural de catequização de índios tupis-guaranis.
As primeiras visitas da Companhia de Jesus para converter os índios nas colônias foram chamadas de missões. Primeiramente, o objetivo dos jesuítas era levar aos indígenas a religião católica, tornando-os um povo mais obediente, monoteísta e aculturado. Para garantir a posse dos novos territórios e defender as fronteiras, os jesuítas atuaram nas reduções: verdadeiras cidades organizadas para controle, defesa e catequização do índio. O termo redução foi cunhado pelos europeus: reduzir seres indolentes e desorganizados em um grupo coeso. Estas cidades nunca ultrapassavam os 7 mil habitantes. Eram auto-suficientes e independentes.
Toda redução tinha uma praça como centro. A igreja era o prédio mais importante. Imensa e imponente, com uma torre alta, inteira construída de pedra grês. Junto à igreja ficavam a residência dos padres e o colégio jesuítico - que ensinava, além de religião, o idioma europeu, os hábitos e modus vivendi da metrópole. Logo ao lado vinham as oficinas, que objetivavam instruir os índios na ética do trabalho, o cemitério e o cotiguaçu, onde eram colocados os órfãos e viúvas. A casa dos caciques e o cabildo, sede da administração municipal, contornavam a praça.
Da mesma forma que surgiu grandiosa - no auge da colonização, a região das missões jesuíticas ocupou 54% da mais importante província espanhola nas Américas, a da Prata, e contava com 140 mil índios - tudo foi rapidamente destruído.
Em 1750, um tratado entre Espanha e Portugal redefiniu as fronteiras da colônia. Pelo novo acordo, a Espanha trocava os Sete Povos das Missões, na margem esquerda do Rio Uruguai, pela Colônia do Sacramento. Depois de quatro anos de negociação, os índios resolveram organizar um exército e declarar guerra contra os colonizadores. Da grande guerra guaranítica pouco restou. O hábito do mate, até hoje presente entre o povo gaúcho, surgiu nesta época. Conta uma lenda que uma índia vivia sozinha e seu pai já estava ficando muito velho. Preocupado com o futuro da filha, pediu aos deuses que lhe dessem algo para fazer companhia. Surgiu a erva mate e, desde então, ela sempre acompanha o povo da região.
Mas, durante a guerra, assim como os índios que foram dizimados, as missões jesuíticas desapareceram. E a história do País foi consagrada. Em ruínas e lendas.


