Fiel à sua vocação como veículo de massa e com a audiência na ordem do dia, a televisão aberta poucas vezes abre mão da máxima de que "em time que está ganhando não se mexe". Isso fica claro ao zapear a programação de qualquer emissora nacional. Todas parecem "engessadas" em um padrão antigo e com produtos e rostos já conhecidos do grande público.
Na teledramaturgia, os efeitos podem ser comprovados a partir do formato e da linguagem folhetinesca há tanto preestabelecida, tentando sempre o equilíbrio perfeito entre romance, drama e comédia, aliados à força de um elenco de "medalhões". "Não existe fórmula para o sucesso, mas a televisão segue uma receita. Até o sujeito mais experimental e artístico precisa respeitar os padrões. E ter a percepção de subvertê-los no momento certo. É um trabalho de convencimento com a direção artística", avalia Ricardo Waddington, diretor de núcleo de "Além do Horizonte", intrincada nova novela das sete da Globo, e responsável por ousadas produções de resultados oscilantes, como o sucesso popular "Avenida Brasil" e o fracasso "western" "Bang Bang".
Em meio a tanta repetição e "déjà vu", alguns diretores – casos de Walter Avancini, Luiz Fernando Carvalho, Guel Arraes e Daniel Filho – e autores – como Dias Gomes, Lauro César Muniz, Walcyr Carrasco e João Emanuel Carneiro – conseguiram ir além do óbvio ao conceber trabalhos diferentes e que fogem ao lugar-comum.
Para Luiz Fernando, diretor de produções de estéticas apuradas e cheias de referências, como "Hoje É Dia de Maria", "Capitu", "A Pedra do Reino" e "Suburbia", o mais complicado é se fazer reconhecido por sua "pegada" mais artística. "É difícil nadar contra a maré até que os seus chefes comecem a entender que seu trabalho experimental pode ser de uso geral da empresa. Acredito que a minha função dentro da Globo é criar com liberdade e 'cavar' novas possibilidades. Não trabalho de olho no Ibope, mas não menosprezo meu público. Todo mundo quer ser visto", analisa Luiz Fernando Carvalho, que, atualmente, além de brincar com o cinema mudo e com a estética da publicidade dos anos 1950 em "Correio Feminino", série do "Fantástico", prepara um especial de fim de ano baseado na obra "Alexandre e Outros Heróis", de Graciliano Ramos.
De fato, alguns diretores criam sua assinatura e tornam-se referências para outros núcleos e departamentos da empresa. É possível encontrar "ecos" das experimentações de Luiz Fernando, por exemplo, na direção de arte de "Cordel Encantado", e da atual "Joia Rara".
Outro exemplo de olhar arrojado que exerce sua influência até hoje é Walter Avancini. Falecido em 2001, ele passou por diferentes emissoras como Tupi, Globo, SBT, Band e a extinta Manchete. E foi a mente por trás de "ícones" da teledramaturgia brasileira moderna, como a urbana "Beto Rockfeller", exibida pela Tupi em 1969, além de outros clássicos que reverberam ousadia, como as primeiras versões de "Selva de Pedra", "Gabriela" e "Saramandaia".
"Cresci vendo meu pai dirigir e é claro que a atenção aos detalhes que era tão peculiar no processo de direção dele também aparece no meu trabalho. Aprendi com ele que nem sempre tudo sai do jeito esperado. Às vezes, o público não embarca na ideia, mas é preciso criar de forma diferenciada", analisa Alexandre Avancini, atualmente, diretor de "Pecado Mortal" e um dos principais nomes da Record.
O tom experimental nem sempre agrega qualidade ao trabalho em questão. O próprio Alexandre, inclusive, sabe das limitações técnicas que teve em "Caminhos do Coração", controversa saga "mutante", criada por Tiago Santiago, que alavancou a audiência da Record em 2008. Com personagens e muitas referências de ficção científica e cinema americano, o sucesso da novela contrariou o formato de teledramaturgia e surpreendeu a emissora. Afinal, na maioria das vezes em que a televisão caminhou em direção ao universo "sci-fi", a repercussão sempre ficou aquém do esperado.
Que o diga os diretores e autores de tramas como "Transas & Caretas", "O Amor Está no Ar", "Morde & Assopra" e "Tempos Modernos", entre outras. "Foi uma aposta arriscada que deu certo. Naquele momento, a emissora estava aberta a esse tipo de proposta. Se você quer se destacar, não adianta ficar fazendo a mesma coisa que a concorrência", orgulha-se Santiago.
É por essa "prova de fogo" da audiência e da crítica que "Além do Horizonte" passará nos próximos meses. Misturando a série "Lost" com o longa "A Praia", só para citar as referências assumidas, a nova novela das sete aposta em um conteúdo de risco, com a assinatura de Marcos Bernstein e Carlos Gregório, ambos estreantes no posto de autores titulares.
Grande entusiasta da ideia dos "novatos", Ricardo Waddington assume que não tem receio de um possível fracasso. "Foi tudo feito com muito cuidado. Mas não se sabe ainda a reação do público. Em caso de sucesso, a gente comemora. Se não for tão bem assim, a gente vai até o fim e tenta fazer algo diferente lá na frente de novo", ressalta.

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