O título poderia ser ''Diário de um Libidinoso'' ou mesmo, mais sutil, ''Diário de um Licencioso'', mas, como se trata de Rubem Fonseca, o livro é provocativo. ''Diário de um Fescenino'' (256 págs.) tem o lançamento nacional digno de um autor peso-pesado, com 40 mil exemplares na tiragem inicial. O livro também inaugura uma coleção da Companhia das Letras que reunirá grandes autores brasileiros e estrangeiros em obras irreverentes e provocativas.
Nada mais natural que o primeiro da fila fosse o livro que marca a volta de Fonseca ao romance. Grande incentivador da escola do romance urbano brasileiro, o escritor mineiro vinha produzindo mais contos até que, estimulado por uma conversa com o editor da Companhia, Luiz Schwarcz, criou o diário de Rufus, um escritor que despontou com sucesso mas logo foi relegado ao ostracismo.
No primeiro dia do ano, ele decide escrever um diário, no qual pretende relatar o trabalho de criação de seu ''Bildungsroman'', ou seja, seu romance de formação. À medida que os dias passam, porém, as anotações se concentram nas relações amorosas que Rufus mantém com diversas mulheres - primeiro Henriette, que é traída por ele com Lucia, que é trocada por Clorinda, cuja irmã, Virna, também acaba na cama do escritor.
A sucessão de casos amorosos é habilmente descrita por Fonseca, que cria uma rede aparentemente simples mas cuja complexidade acaba criando uma armadilha para o escritor no momento em que Virna, ao descobrir que Rufus também se relaciona com Clorinda sem que nenhuma delas saiba, o acusa de estupro, processando-o em seguida. As dentadas no corpo que ela fogosamente lhe pede durante o sexo transformam-se em arma poderosa na mão da promotoria.
Ao mesmo tempo em que narra suas aventuras amorosas, Rufus reflete, com ironia e fina erudição, sobre o fazer literário e o sentido das relações eróticas e afetivas. Afinal, apesar de reclamar constantemente de não conseguir escrever seu ''romance de formação'', Rufus constrói outro, sobre chantagens econômicas e emocionais, muito mais edificante, portanto, por não ser hipócrita.
''Diário de um Fescenino'' é o livro ideal para iniciar uma coleção que não tem nome, apenas propostas de irreverência e provocação. ''Preferimos não dar nenhum nome para não aprisionar a coleção'', conta Luiz Schwarcz, que notou, logo de início, a dificuldade para organizar uma coleção com essa proposta. ''Quando contei essa minha idéia à editora britânica Liz Calder, ela me desejou sorte, pois não conseguiu fazer o mesmo na Inglaterra.''
Schwarcz admite que a coleção surgiu a partir de uma série de fatos afortunados. A Companhia das Letras já adquirira os direitos de reedição da obra de Henry Miller, especialmente ''Sexus, Nexus e Plexus''. Com os originais de Fonseca nas mãos, o editor conversou com Moacyr Scliar, que também revelara interesse em escrever um livro com conteúdo erótico. Ao mesmo tempo, Schwarcz negociou a publicação de inéditos de Reinaldo Moraes e André Sant'Anna. ''Em alguns meses, a coleção tomou forma'', comemora.
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna Alfabeto Visual, de Rubens Pillegi Sá.

mockup