RPG: das mesas para os games
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de janeiro de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local <br> 
Já se foi o tempo em que jogar RPG era uma atividade restrita a garotos reclusos e nerds. Hoje, com milhares de referências espalhadas pelo universo pop que vão desde o desenho animado Caverna do Dragão até a trilogia cinematográfica de O Senhor dos Anéis e o popular seriado de comédia Big Bang Theory é possível afirmar que os jogos de RPGs integram com naturalidade a cultura popular.
Criado e popularizado entre estudantes da Califórnia na década de 70, o RPG é a abreviação de Role Playing Game (em inglês, Jogo de Interpretação de Papéis), e o grande diferencial desse tipo de jogo é que ele permite ao jogador assumir características físicas e psicológicas de um personagem de sua escolha, com um nível de liberdade, criatividade e improvisação.
Todos os jogos proporcionam interação, mas acho que os RPGs são casos especiais, porque eles estimulam você a criar um personagem do zero, ajudar o seu grupo em uma missão, convencer outras pessoas. Esses fatores tornam ele muito complexo, analisa Eduardo Baggio Vieira, proprietário da BatBanca, estabelecimento especializado em produtos do gênero em Londrina. Eu conheci pessoas jogando RPG de mesa quando estava no colégio que são meus amigos até hoje. Acredito que o jogo de interpretação proporciona esse tipo de amizade, reflete.
Segundo o empresário, é difícil mensurar quantas pessoas atualmente jogam os RPGs antigos, já que, para tanto, bastam alguns livros, dados e umas folhas de papel. Mesmo quem joga, não compra mais livros; eles pedem emprestado de amigos, xerocam ou baixam pela internet, observa Baggio, acrescentando que as principais vendas de produtos acontecem geralmente em períodos cíclicos, e aumentam durante as férias escolares. Também existe o problema do tempo. Geralmente, quanto mais velho você fica, menos tempo tem para jogar, admite.
Mercado de US$ 5 bi
Se, por um lado, é quase impossível medir o mercado atual dos RPGs tradicionais, nas telas dos videogames e computadores os números impressionam, transformando o jogo em muito mais do que uma brincadeira entre amigos. De acordo com dados divulgados há uma semana pela agência de pesquisas Newzoo.org, os chamados MMORPGs (RPGs jogados online, com usuários de todo o mundo) já movimentam mais de US$ 5 bilhões por ano, e a previsão é de que o mercado para esse tipo de game ultrapasse a soma de U$ 8 bilhões em 2014, superando o lucro tanto da indústria fonográfica quanto de Hollywood.
Acompanhando o potencial de mercado de países como México e Rússia, no Brasil já existem cerca de 35 milhões de jogadores ativos de MMORPGs, e esses usuários movimentaram, em média, R$ 2 bilhões em jogos e consoles.
No meio de tanta euforia, será que o velho RPG de mesa ficou no passado? Eu acho que uma coisa não atrapalha a outra. Na verdade, existem pessoas que começam jogando RPG online e só depois compram os livros, ou vice-versa. A única diferença é que é mais fácil ligar o computador do que arranjar tempo pra se reunir com um grupo de amigos, opina Baggio.
Lógico que jogar com os amigos, ao vivo, bebendo e dando risada é muito melhor. Pena que hoje não tenho mais tempo, concorda o empresário Marco Maluf, que trocou gradualmente os dados d20 (com 20 faces, bastante usado por quem joga RPG de mesa) pelo controle do videogame.
Jogador bastante experiente no mundo virtual, Marco manteve uma conta durante três anos no World of Warcraft, e já passou pelos universos de jogos como Ultima Online, Fable II e III. Na verdade, eu comprei meu videogame Xbox só por causa da sequência de jogos Fable, admite, rindo.
Atualmente, Maluf (mmaluff na rede PSN) acumula mais de 200 horas no jogo The Elder Scrools V: Skyrim, do Playstation 3. Comecei a jogar RPGs de mesa dos títulos Lobisomem e D&D quando tinha 13, 14 anos. Era muito divertido, e fiz amigos para sempre. Alguns deles, inclusive a minha namorada, ainda jogam comigo, mas agora pelo videogame, declara.
Contrariando o estereótipo nerd, Maluf afirma que também é possível criar novas amizades em aventuras virtuais. Hoje, tenho um grande amigo pessoal que conheci online. Ele até já parou de jogar, mas a amizade continua, afirma. Eu observo bastante isso com meu clientes. Mesmo jogando no mundo virtual, as pessoas ainda fazem fortes amizades na vida real. Isso é importante, o RPG é, em essência, um jogo social, complementa Eduardo Baggio, da Bat Banca.


