Estilistas antecipam
a moda para os dias
quentes: inspiração vem
dos alimentos saudáveis
Silvana Leão


Mário CesarMarta Kasznar
Feghali:
‘‘Nós apenas
sugerimos,
quem define
o que usar
é o público,
porque a
moda deixou
de ser
ditatorial’’Ter um rabanete estampado na roupa pode ser chique? Os estilistas garantem que sim. Junto com a pimenta, a batata, a abóbora, o aspargo, a alface, o tomate e tudo que puder compor uma bonita e saborosa salada, os rabanetes vão ser a sensação do próximo verão. Além das cores, estes ingredientes vão emprestar textura e - por que não? - sabor à moda que vai invadir as vitrines na estação mais quente do ano.
Esta foi uma das principais tendências que profissionais da moda de todo o Estado puderam conferir ontem à noite, em desfile realizado no Empório Guimarães, em Londrina, pelo Serviço de Apoio à Pequena Empresa (Sebrae) no Paraná e sindicatos do vestuário de Londrina, Maringá, Cianorte e Apucarana. O evento foi uma das promoções previstas para anteceder a Feira Moda do Paraná, que este ano vai ser realizada no Pavilhão Expoara, em Arapongas, entre os dias 22 e 25 de setembro.
A Feira foi idealizada no ano passado através de uma parceria entre os sindicatos daquelas quatro cidades, que compõem a rota da moda no Estado. Em vez de realizar eventos separados, Londrina, Cianorte, Maringá e Apucarana decidiram se unir para terem mais representatividade. E parece que deu certo. Na primeira edição, realizada ano passado em Maringá, a Moda Paraná atraiu grandes compradores de todo o País, como Lojas Riachuelo, Tecelagens Santista, Vicunha e Renault.
Este ano, o evento, que já faz parte do calendário oficial da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), passa de 198 para 250 expositores - só a Renault já reservou uma área de 240 metros. Esta edição, além do patrocínio do Sebrae, conta com o apoio do Sistema Fiep, Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel).
Antes do desfile de ontem à noite, os estilistas, confeccionistas, vitrinistas e outros profissionais que compareceram ao Empório Guimarães participaram de seminário ministrado pela pesquisadora de moda e mercado Marta Kasznar Feghali e pela estilista Ana Paula Moreira, do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) / Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil (Cetiqt), do Rio de Janeiro. Marta falou sobre o tema que deverá inspirar as coleções da primavera/verão 98/99: culinária.
E para quem acha que comida não tem nada a ver com roupa, a pesquisadora trata logo de esclarecer: ‘‘Uma grande fonte de inspiração serão os legumes. A casca da batata, por exemplo, que apresenta um tipo de textura de cada lado, poderá estar retratada nos tecidos de dupla face’’, diz, lembrando que estes ingredientes também foram o tema escolhido pela última PremiSre Vision, maior feira de design têxtil, que acontece em Paris.
‘‘É como uma grande salada crua’’, compara Marta. No Caderno de Tendências 98/99 lançado pelo Cetiqt ela afirma: ‘‘O inverno foi ‘sentir’, o verão é provar, ‘degustar’... No verão, os sentidos se preocupam mais com os efeitos das texturas e dos acabamentos’’. Uma boa dica para os confeccionistas é fazer com que o consumidor sinta ‘‘água na boca’’ ao ver uma roupa.
Para isso, não vão faltar transparências, sobreposições, plissês e tecidos ‘‘crocantes’’, como o chifon. Marta Feghali lembra que moda hoje em dia é comportamento, atitude, reflexo de um estilo de vida mais zen, mais relaxado. Assim, a roupa deve ser gostosa, voltada para o pessoal, para o sensual.
O verão 98/99 encontra sua inspiração na alegria de viver e na paz e harmonia sob as mais variadas formas. São três tendências básicas. A primeira é chamada de Jardim da Vida, inspirada nos alimentos mais saudáveis, como verduras, legumes e frutas. Privilegia as fibras naturais, como o algodão cultivado sem agrotóxico, o linho, o rami e o cânhamo.
A segunda fonte de inspiração é o Tempero da Vida, que traz uma profusão de comidas exóticas e viagens a lugares distantes. Aqui a ênfase se dá nas especiarias, arroz, feijão e café, entre outros. Também resgata nossas raízes, por isso procura despertar a atenção dos confeccionistas para os negros, grande parcela de nossa população e um nicho de mercado ainda não aproveitado adequadamente pelo mundo da moda. Estampas étnicas e tribais, nas cores fortes do coloral, do açafrão, do curry e do dendê trazem à tona uma forte sensualidade.
A terceira tendência foi chamada de Festas da Vida, inspirada nos confeitos de bolo, nos suspiros. Traz tecidos com texturas aeradas, como crepes, sedas e algumas microfibras, além de muito brilho, como o próprio tema sugere. A cor é o branco, que está presente nas muitas rendas e tecidos florais. Uma moda para mulheres ingênuas e românticas.
O que estas três tendências têm em comum? A satisfação diária que vem dos mais simples prazeres da vida: o ato de comer. A grande tendência do verão 98/99 resume-se, portanto, no Gosto. Porém, Marta Feghali faz questão de lembrar: ‘‘Tudo isso é apenas inspiração. Nós apenas sugerimos, quem define o que usar é o público, porque a moda deixou de ser ditatorial.’’
Para quem põe a mão na massa, a receita de Marta para servir uma ‘‘moda apetitosa’’ também não apresenta grandes segredos: ‘‘Selecione safras de tecidos crocantes, tempere com estampas de sabor africano e junte cores suculentas. Misture todos estes ingredientes com bom gosto e estilo... Quanto mais amor, melhor resultado’’. Este será, certamente, um verão de encher os olhos.

mockup