Roupa suja se lava na tv?
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segunda-feira, 17 de novembro de 1997
Eduardo Minc TV Press 
Cacalo Kfouri/Carta Z NotíciasMárcia Goldschmidt: Eu me sinto, honestamente, uma espécie de assistente socialNem a própria apresentadora Márcia Goldschmidt previa uma audiência tão grande para seu programa de estréia na televisão. Entre tapas e beijos, o Márcia, do SBT, dá aos convidados, em geral pessoas simplórias, os 15 minutos de fama regulamentares da vida moderna e a ela muito pontos de audiência.
Márcia é exibido às terças-feiras e tem registrado picos de até 21 pontos de audiência - já bateu diversas vezes pesos pesados da Globo, como Brasil Legal, A Comédia da Vida Privada e Som Brasil.
Selecionada para comandar a versão nacional do talk show americano Ricky Lake Show, Márcia leva ao programa pessoas que tenham alguma pendenga. Elas discutem, se atracam, se xingam e, às vezes, conseguem chegar a alguma conclusão. Os temas são os óbvios para um programa do gênero: vizinhos em guerra aberta e declarada, mulheres gordas desprezadas pelos maridos, casais tomados por um ciúmes doentios ou pais e filhos que chegaram a um impasse na convivência. As pessoas vêm ao programa em busca de alguém que entenda seus dramas, explica.
Embora não seja formada em nada, Márcia se considera um misto de psicóloga, advogada e jornalista. Sou a pessoa certa para ficar à frente de um programa que aborda problemas que afligem o povo, gaba-se. Aos 35 anos, ela assegura que já passou poucas e boas e viveu o suficiente para entender as desgraças alheias. Divorciada duas vezes, Márcia chegou a morar seis anos em Paris para esquecer a tristeza. Por lá, na solidão, acha que desvendou os segredos dos relacionamentos humanos. Tanto que quando voltou, abriu uma agência matrimonial.
Quais os motivos da grande audiência do Márcia?
Márcia Goldschmidt - Acho que, pela primeira vez, um programa de tevê está valorizando o senhor anônimo da multidão. A tevê, de modo geral, é feita para o público, mas nunca com a presença ativa deste mesmo público. Acredito que no meu programa o público que participa ganha respeito porque passa a ser entrevistado e a ter uma importância igual à de uma pessoa conhecida.
Você acha que o programa tem a capacidade de amenizar a solidão e os problemas das pessoas?
Márcia Goldschmidt - Acho que sim. O Márcia proporciona um espaço para que as pessoas comuns, que não podem se dar ao luxo de ir a psicanalistas, possam desabafar com alguém que as leve a sério. A gente acaba fazendo terapia em grupo. E eu me sinto, honestamente, uma espécie de assistente social.
Como podem vizinhos que convivem há dez anos sentirem-se mais à vontade ofendendo-se mutuamente diante de milhões de pessoas que resolvendo os seus problemas anonimamente?
Márcia Goldschmidt - Acho que a catarse dessas pessoas acontece naturalmente diante das câmeras, por incrível que possa parecer. É lógico que elas poderiam ir ao bar na esquina de onde moram e resolver as pendengas numa boa. Mas, ao serem expostas por uma câmara, elas se dão conta do quanto era ridículo o motivo que as levava a brigar. No caso dos vizinhos, você pode estar se referindo a um homem que se queixava de uma vizinha que não o deixava dormir porque ela cismava em colocar o som num volume alto. Só que, no momento da argumentação, a moça não se defendeu e passou a ficar até um pouco omissa. Aí entra um dos meus papéis.
Qual?
Márcia Goldschmidt - O de ter a sensibilidade para perceber o drama das pessoas. Nesse caso específico, senti a fraqueza argumentativa da vizinha que perturbava o sono do vizinho e a incentivei a argumentar. Naquele caso, porém, a moça percebeu que estava pisando na bola. Acho até que ela gostava dele e, por isso, queria chamar a atenção. Tenho uma sensibilidade que me aponta a direção em que existe apenas um amor maquiado por animosidades.
Quando você pôde pôr à prova essa sensibilidade?
Márcia Goldschmidt - Às vezes o programa pega fogo mesmo e eu tenho de intervir. Ou quando o palavreado começa a ficar muito grosseiro ou quando os ânimos se exaltam demasiadamente. Teve um programa que mostrava o tema do adultério e que uma mulher quase partiu para cima do amante. Aí tive de me colocar no meio para evitar agressões.
Mas você não cria um clima de conflitos?
Márcia Goldschmidt - Não, crio um clima em que as pessoas possam se expor e se defender. Agora, no que diz respeito à minha postura, procuro levar numa boa as críticas. A única coisa que não suporto são mentiras. As pessoas podem achar que eu sou barraqueira ou faço um determinado tipo de terapia. Só que, no fundo, eu acredito muito no que faço.
De que você se orgulha?
Márcia Goldschmidt - De mostrar o Brasil como ele é. O programa existe porque os problemas existem. Você acha que não existem socialites gordas e que os maridos rejeitam? É lógico que existem. Mas as pessoas que têm grana e status preferem viver num mundo de fantasias.
Você pensa em chamar pessoas conhecidas para participar do programa?
Márcia Goldschmidt - O Márcia pode trazer pessoas conhecidas sim, perfeitamente. Mas desde que elas se proponham a falar a verdade e se adequem à fórmula do programa. Agora, honestamente, acho difícil que gente conhecida publicamente, e que tem o rabo preso, queira travar discussões honestas em público.
O que faz com que um trabalhador, que chega cansado em casa, prefira se distrair vendo brigas alheias?
Márcia Goldschmidt - As pessoas estão cansadas do eterno blá-blá-blá de muitos programas de tevê, inclusive os da Globo. A ficção já encheu o saco. As pessoas, hoje em dia, estão procurando identidade, além de estarem mais interessadas em questões da vida real.
Vale tudo pela audiência?
Márcia Goldschmidt - Vale até o momento em que não se ultrapasse a linha tênue que separa respeito e desrespeito. Eu não desrespeito ninguém no meu programa. Nesse sentido, não faço concessões. Levei até jornalistas que me acusam de fazer armações e pagar os convidados para assistir a uma gravação. Eles comprovaram a autenticidade do programa.
Você já disse que o Sílvio Santos acerta 11 em cada dez apostas relacionadas às estratégias de programação. Por que, então, o SBT não é a emissora mais vista no País?
Márcia Goldschmidt - Porque a emissora é nova, se comparada a Globo. Além do mais, a Globo ainda é um vício para as pessoas. Sinceramente, não acredito que grande parte do público já tenha criado uma independência global. Muita gente deixa a tevê ligada lá e pronto.
Você acredita que o Márcia seria viável na Globo?
Márcia Goldschmidt - Atualmente, acho que não. Em breve, pode até ser. Mas hoje, até os improvisos do Faustão a gente sabe que não têm nada de improvisados.


