Dramas temáticos sobre dinastias irlandesas encravadas na polícia dos EUA são pouca coisa menos numerosos do que aqueles de dinastias italianas de mafiosos. Tanto uns como outros compartilham lealdade à família especificamente constituída, e por extensão ao corpo policial ou então ao clã, que são na verdade a extensão profissionalmente sanguinea destes grupos. ''Força Policial'', em estréia nacional a partir de hoje (veja a programação na página 2), fala sobre família, polícia, corrupção. Nada que você, cinéfilo de carteirinha e há muitos anos tiete deste gênero na tela grande ou nos desdobramentos televisivos serializados, já não tenha visto dezenas de vezes.
O NYPD, departamento de polícia de Nova York, tem como divisa ''Pride and Honor'', transformados em ''orgulho e glória'' do título original. Na trama em questão, a boa e a má reputação afetam a família Tierney, a serviço da lei e da ordem há várias gerações. O conflito explode quando um dos membros mais jovens, Ray Tierney (Edward Norton), por pressões do comandante da guarda metropolitana e seu próprio pai, Francis Tierney Sr. (Jon Voight), se vê obrigado a deixar o tranquilo Depto. de Desaparecidos para tentar prender o assassino de quatro colegas da Divisão de Narcóticos que estavam sob as ordens de seu irmão, Francis Jr. (Noah Emmerich). Mas quem parece estar mesmo envolvido é o cunhado Jimmy Eagan (Colin Farrell).
A corrupção policial é o móvel dos crimes. Pela enésima vez. Mas aqui não se trata tão somente do suborno oferecido por traficantes e dividido entre um grupo de tiras. Ou da extorsão dos policiais contra comerciantes. Ou dos métodos brutais para arrancar confissões de suspeitos, ou falsificar provas. O que de fato ''Pride and Glory'' pretende questionar é a honra da instituição a qual pertencem. O axioma é simples: o bom nome da polícia deve estar acima de qualquer suspeita, nem que para isto seja preciso encontrar bodes expiatórios. Mais: nem que isto implique em fechar os olhos e deixar impunes corruptos ou ineptos. Você já viu este filme antes, com toda a certeza.
Bem, o que se há de fazer ? Quando o espectador se dá conta, já é tarde demais. Ele está diante apenas de um banal filme violento que descreve o lado obscuro da polícia. Parece pouco, e é de fato. O público mais velho vai se lembrar da safra muito semelhante e muito superior surgida nos anos 1970, ''Serpico'' à frente. E a platéia mais jovem e aplicada nos deveres da sala escura pode sacar de memória menos congestionada o ''L.A. Confidential'', baseado no universo nebuloso do escritor especialista James Ellroy. No segmento questões de família, a referência óbvia e obrigatória é o recente ''Os Donos da Noite'', mas aqui o diretor Gavin Connor não tem a pegada de James Gray, que aliás também tinha lá seus problemas.
É inegável o magnetismo de Norton e Farrell, atores que sempre buscam escapulir um pouco do cinema meramente comercial. E por isso resulta incompreensível que tenham se envolvido com um roteiro tão inoperante, banal, previsível e em consequência, carente de boas surpresas. A narrativa, em que pese o texto medíocre, tem boa fluência cinematográfica, mas ao final fica a impressão incômoda de que se viu tão somente um despersonalizado filme de gênero a mais, quando por alguns momentos a história chega a sugerir vôos mais altos.

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