Roupa suja, à moda brasileira
Como no Brasil a televisão governa soberana sobre o cinema, o nome Selton Mello aparece antes para o público como aquele ator bom de comédia, o cara engraçado das séries ''O Auto da Compadecida'', ''A Invenção do Brasil'', ''Os Normais'' e ''Os Aspones''. Só depois então é que se lembrarão dele na tela grande como o Chicó que fazia dupla com o João Grilo de Mateus Nachtergaele em ''O Auto da Compadecida'', um dos filmes mais rentáveis do período da retomada. Ou como o traficante João Guilherme Estrela no drama recente ''Meu Nome Não é Johnny''. Ou ainda como Leléu no romance ''Lisbela e o Prisioneiro''. Uma interessante carreira de ator de cinema construída ali no final do século passado e no limiar deste.
Tão inquieto quanto talentoso, e atento observador-aprendiz do ofício, era praticamente inevitável que Selton fosse preparando sua estreia como diretor de cinema. O que afinal ocorreu ano passado com ''Feliz Natal'', filme em exibição a partir de hoje no circuito local (veja a programação de cinema na página 2). Mas ao contrário do que muita gente pensou, ele não passou recibo da veia histriônica, de caso pensado desconsiderou a comédia e partiu para a manufatura de um drama familiar denso, de atmosfera rarefeita, recheado de (boas) influências. Seu filme é autoral, sem concessões.
''Feliz Natal'' não dá vida fácil ao espectador, por dentro e por fora, isto é, na forma que rebusca o conteúdo. O trânsito da narrativa é pelo viés da complexidade dramatúrgica. Caio (Leonardo Medeiros), dono de um passado obscuro e de um ferro velho no interior, decide voltar para a casa da família. Lá ele encontra a mãe descontrolada, Mércia (Darlene Glória); Miguel, o pai (Lucio Mauro) agora vive com uma garota, digamos, sem maiores compromissos morais; Theo, o irmão endurecido e quase alcoólatra (Paulo Guarnieri) e a cunhada Fabi (Graziella Moretto), perdidos todos numa caótica noite natalina. Família mais disfuncional impossível.
Selton Mello demonstra neste primeiro recuo para trás das câmeras ser um cineasta criando sob influências. Este seu filme tão intenso sobre deserdados relê personagens e estilos simultaneamente antagônicos e complementares, une Nelson Rodrigues a John Cassavetes, flerta com a novidade argentina Lucrecia Martel. É uma amálgama de dores, de paroxismos, de experiências humanas levadas a seus últimos limites. Não é um grande filme, mas obra que revela as melhores intenções de um diretor que sabe ser tão talentoso quanto o ator. (C.E.L.J.)





