ROTINA ESCOLAR - Quando 'zoar' vira trauma
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segunda-feira, 06 de julho de 2009
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
''Mas professora, zoar é normal.'' Cansada de ouvir essa afirmação da parte de alguns alunos para justificar atitudes agressivas, intencionais e repetidas em relação aos colegas durante as suas aulas de Educação Física, a professora Maria de Fátima Moreira decidiu que era hora de tomar uma atitude mais enfática para melhorar a sua rotina escolar.
Aproveitando a oportunidade de ficar um ano afastada da sala de aula para estudar um tema pertinente à sua prática - dentro do Programa de Desenvolvimento Educacional do Estado (PDE) -, ela decidiu investigar o assunto que tanto a incomodava: a prática do bullying entre os seus alunos.
Nessa formação continuada em que estudou com professores de outras áreas, e com a orientação do professor Dartagnan Pinto Guedes, do Departamento de Educação Física da UEL, Maria de Fátima desenvolveu o projeto ''Intervenção do professor de Educação Física na prevenção e redução do bullying entre os educandos'', que está sendo aplicado desde o início do ano no Colégio Estadual Atílio Codato, de Cambé.
''Durante os meus estudos sobre bullying, cheguei à conclusão de que está havendo uma crise de valores morais, de cidadania, e era preciso fazer um resgate do diálogo, da cooperação, da tolerância e da solidariedade na escola'', afirmou.
Inicialmente trabalhando de forma mais direta com os seus alunos da 8 série e do Ensino Médio, não demorou para que o projeto fosse ganhando uma nova dimensão e multiplicado para outras turmas, incluindo a formação de um grupo de estudo sobre bullying com professores de outras séries e até reuniões com pais. Pelo envolvimento integral da comunidade escolar e os benefícios que a prática esta gerando, a iniciativa deverá ser incluída no Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola até o final do ano.
''A prática do bullying é mais comum do que pensamos e deve-se desconfiar da escola que diz que nela isso não acontece. E como professores devemos ficar ainda mais atentos, principalmente quando 'rotulamos' alguns alunos'', comentou Maria de Fátima.
O trabalho envolve a elaboração de cartazes de conscientização, com frases de efeito que chamam a atenção; a exibição de filmes e reportagens sobre o assunto; a leitura de textos específicos; debates em sala de aula, entre outras ações.
Para o segundo semestre, oito equipes do 1º ano do Ensino Médio estão preparando peças teatrais sobre bullying para serem apresentadas em outras escolas. Em duas delas, pode-se verificar algumas facetas dessa prática de violência. No trecho de uma das peças o professor acaba sendo vítima de bullying e leva um cadeirante para dar uma palestra sobre o assunto para os seus alunos indisciplinados e grosseiros; na outra, assistimos a alguns relatos dramáticos de vítimas de bullying que se voltam de forma vingativa contra seu agressor.
''Por mais normal que possa parecer, não devemos minimizar esse tipo de comportamento e devemos lembrar que a maioria de estudantes que cometeram assassinatos em escolas americanas foram vítimas de bullying, que está muito relacionado à baixa autoestima. Se a pessoa tem uma autoestima saudável, os apelidos pejorativos não são internalizados e isso não gera um trauma. O problema é quando acontece o contrário'', alertou.
Recreio Solidário
Durante o desenvolvimento do projeto, percebeu-se que as turmas do turno vespertino de 2ªà 6ªsérie vinham apresentando muitos conflitos durante o recreio e surgiu a ideia do Recreio Solidário.
Aparentemente simples, a iniciativa tem conseguido uma verdadeira revolução na escola e um exercício diário de cidadania, responsabilidade e solidariedade entre os alunos da 8ªsérie e do Ensino Médio. Responsáveis pelo Recreio Solidário, alunos dessas séries se revezam em uma escala pré-organizada para realizar atividades recreativas para os alunos menores da tarde.
Jogo de Amarelinha, Jogo da Velha, pular corda, tênis de mesa, chute ao gol, arremesso à cesta e arremesso de bola na boca do palhaço fazem parte da recreação que há três semanas está conseguindo melhorar o comportamento dos alunos. Observando as aproximadamente 250 crianças durante o recreio é visível a satisfação delas e é difícil imaginar que antes o bom espaço físico que a escola possui não era aproveitado de uma maneira tão prazerosa e criativa.
As amigas Thaís Boa Sorte Rocha e Nathalia Fernandes de Souza, ambas de 14 anos, estavam pela primeira vez participando como monitoras. Sabemos que essa ação está trazendo muitos benefícios e estamos preparadas para intervir através do diálogo em caso de percebermos a prática de agressão entre eles, garantiram. E são atividades que não promovem contato físico entre eles e não necessitam da presença formal de um professor de Educação Física, acrescentou a professora.
Em um dos grupinhos do Jogo da Velha, a resposta entre os alunos era a mesma quando questionados sobre o que mudou com o novo recreio: Acabaram as brigas. Antes a gente só ficava andando pra lá e pra cá, num grande espaço vazio. (A.P.N.)
* Informamos que devido ao recesso escolar a Folha Cidadania voltará a ser publicada no dia 28 de julho.


