''Mas professora, zoar é normal.'' Cansada de ouvir essa afirmação da parte de alguns alunos para justificar atitudes agressivas, intencionais e repetidas em relação aos colegas durante as suas aulas de Educação Física, a professora Maria de Fátima Moreira decidiu que era hora de tomar uma atitude mais enfática para melhorar a sua rotina escolar.
Aproveitando a oportunidade de ficar um ano afastada da sala de aula para estudar um tema pertinente à sua prática - dentro do Programa de Desenvolvimento Educacional do Estado (PDE) -, ela decidiu investigar o assunto que tanto a incomodava: a prática do bullying entre os seus alunos.
Nessa formação continuada em que estudou com professores de outras áreas, e com a orientação do professor Dartagnan Pinto Guedes, do Departamento de Educação Física da UEL, Maria de Fátima desenvolveu o projeto ''Intervenção do professor de Educação Física na prevenção e redução do bullying entre os educandos'', que está sendo aplicado desde o início do ano no Colégio Estadual Atílio Codato, de Cambé.
''Durante os meus estudos sobre bullying, cheguei à conclusão de que está havendo uma crise de valores morais, de cidadania, e era preciso fazer um resgate do diálogo, da cooperação, da tolerância e da solidariedade na escola'', afirmou.
Inicialmente trabalhando de forma mais direta com os seus alunos da 8 série e do Ensino Médio, não demorou para que o projeto fosse ganhando uma nova dimensão e multiplicado para outras turmas, incluindo a formação de um grupo de estudo sobre bullying com professores de outras séries e até reuniões com pais. Pelo envolvimento integral da comunidade escolar e os benefícios que a prática esta gerando, a iniciativa deverá ser incluída no Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola até o final do ano.
''A prática do bullying é mais comum do que pensamos e deve-se desconfiar da escola que diz que nela isso não acontece. E como professores devemos ficar ainda mais atentos, principalmente quando 'rotulamos' alguns alunos'', comentou Maria de Fátima.
O trabalho envolve a elaboração de cartazes de conscientização, com frases de efeito que chamam a atenção; a exibição de filmes e reportagens sobre o assunto; a leitura de textos específicos; debates em sala de aula, entre outras ações.
Para o segundo semestre, oito equipes do 1º ano do Ensino Médio estão preparando peças teatrais sobre bullying para serem apresentadas em outras escolas. Em duas delas, pode-se verificar algumas facetas dessa prática de violência. No trecho de uma das peças o professor acaba sendo vítima de bullying e leva um cadeirante para dar uma palestra sobre o assunto para os seus alunos indisciplinados e grosseiros; na outra, assistimos a alguns relatos dramáticos de vítimas de bullying que se voltam de forma vingativa contra seu agressor.
''Por mais normal que possa parecer, não devemos minimizar esse tipo de comportamento e devemos lembrar que a maioria de estudantes que cometeram assassinatos em escolas americanas foram vítimas de bullying, que está muito relacionado à baixa autoestima. Se a pessoa tem uma autoestima saudável, os apelidos pejorativos não são internalizados e isso não gera um trauma. O problema é quando acontece o contrário'', alertou.




‘Recreio Solidário’

 Du­ran­te o de­sen­vol­vi­men­to do pro­je­to, per­ce­beu-se que as tur­mas do tur­no ves­per­ti­no – de 2ªà 6ªsé­rie – vi­nham apre­sen­tan­do mui­tos con­fli­tos du­ran­te o re­creio e sur­giu a ­ideia do ‘‘Re­creio ­Solidário’’.
  Apa­ren­te­men­te sim­ples, a ini­cia­ti­va tem con­se­gui­do uma ver­da­dei­ra re­vo­lu­ção na es­co­la e um exer­cí­cio diá­rio de ci­da­da­nia, res­pon­sa­bi­li­da­de e so­li­da­rie­da­de en­tre os alu­nos da 8ªsé­rie e do En­si­no Mé­dio. Res­pon­sá­veis pe­lo ‘‘Re­creio ­Solidário’’, alu­nos des­sas sé­ries se re­ve­zam em uma es­ca­la pré-or­ga­ni­za­da pa­ra rea­li­zar ati­vi­da­des re­crea­ti­vas pa­ra os alu­nos me­no­res da tar­de.
  Jo­go de Ama­re­li­nha, Jo­go da Ve­lha, pu­lar cor­da, tê­nis de me­sa, chu­te ao gol, ar­re­mes­so à ces­ta e ar­re­mes­so de bo­la na bo­ca do pa­lha­ço fa­zem par­te da re­crea­ção que há ­três se­ma­nas es­tá con­se­guin­do me­lho­rar o com­por­ta­men­to dos alu­nos. Ob­ser­van­do as apro­xi­ma­da­men­te 250 crian­ças du­ran­te o re­creio é vi­sí­vel a sa­tis­fa­ção de­las e é di­fí­cil ima­gi­nar que an­tes o bom es­pa­ço fí­si­co que a es­co­la pos­sui não era apro­vei­ta­do de uma ma­nei­ra tão pra­ze­ro­sa e cria­ti­va.
  As ami­gas ­Thaís Boa Sor­te Ro­cha e Na­tha­lia Fer­nan­des de Sou­za, am­bas de 14 ­anos, es­ta­vam pe­la pri­mei­ra vez par­ti­ci­pan­do co­mo mo­ni­to­ras. ‘‘Sa­be­mos que es­sa ­ação es­tá tra­zen­do mui­tos be­ne­fí­cios e es­ta­mos pre­pa­ra­das pa­ra in­ter­vir atra­vés do diá­lo­go em ca­so de per­ce­ber­mos a prá­ti­ca de agres­são en­tre ­eles’’, ga­ran­ti­ram. ‘‘E são ati­vi­da­des que não pro­mo­vem con­ta­to fí­si­co en­tre ­eles e não ne­ces­si­tam da pre­sen­ça for­mal de um pro­fes­sor de Edu­ca­ção ­Física’’, acres­cen­tou a pro­fes­so­ra.
  Em um dos gru­pi­nhos do Jo­go da Ve­lha, a res­pos­ta en­tre os alu­nos era a mes­ma quan­do ques­tio­na­dos so­bre o que mu­dou com o no­vo re­creio: ‘‘Aca­ba­ram as bri­gas. An­tes a gen­te só fi­ca­va an­dan­do pra lá e pra cá, num gran­de es­pa­ço ­vazio’’. (A.P.N.)


* Informamos que devido ao recesso escolar a Folha Cidadania voltará a ser publicada no dia 28 de julho.

mockup