Roteiro de 'Cruz e Sousa' sai em edição tetralíngue
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 28 de dezembro de 2000
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
Sylvio Back acaba de lançar a edição tetralíngue do roteiro de Cruz e Sousa, seu belo filme sobre o poeta catarinense. Já houve muitos livros de roteiros, mas não como esse. O texto de Back sai em português e nas versões em inglês, espanhol e francês. Cruz e Sousa, o poeta do desterro, vira The Banished Poet, El Poeta Proscrito e Le Poete Banni. No texto do filme estão embutidos os poemas do gênio do simbolismo brasileiro. Esses poemas ganham versões exemplares, haja vista o texto que o requintado lançamento da 7 Letras estampa na contracapa.
Vozes veladas, veludosas vozes/ Volúpias dos violões,
vozes veladas/ Vagam nos velhos vórtices velozes/ Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. As versões imortais ganham novas versões. Em inglês: Those velvet voices, voices that are veiled/ Garrulous guitars with velvet voices/ Roaming through the vortx-whirl of exhaled/ Wind: living, haughty, volcanic voices. Em espanhol? Voces veladas, vaporosas vozes/ Volupias de violines,veladas/ Vagan en viejos vórtices veloces/ De los vientos, vanas, vulcanizadas. Em francês: Voix de velours voilées, voix veloutées/ Voluptés de violons, les voix voilées/ Vaguent sur le vortex en velocité/ Venustés, vivantes vaines, vulcanisées.
Na orelha do livro, Back explica que o projeto de publicar esse roteiro tetralíngue é fruto de uma preocupação que começou a atormentá-lo já na fase da escrita. Pensei que na hora de subtitular ou dublar o filme para algum festival internacional e na sua posterior circulação externa, a técnica usual de literalmente verter os diálogos iria desmobilizar tanto o beat afro-brasileiro de Cruz e Sousa como a própria sofisticação e o colorido verbal dos seus poemas e prosa poética. Partindo dessa preocupação, ele amadureceu a idéia de entregar a poetas que tivessem familiaridade com o universo de Cruz e Sousa a tarefa de traduzir os versos que fazem as vezes de diálogos. Sua justificativa: Ninguém melhor do que um poeta para traduzir poesia.
Foi assim que foram surgindo e se definindo os colaboradores dessa tarefa essencial - o poeta, professor, editor e tradutor americano Steven F. White para a versão em inglês, o brasileiro Walter Carlos Costa, que estudou na Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, com tese de mestrado sobre Guimarães Rosa, para o espanhol, e Leonor Scliar-Cabral e a tradutora brasileira Marie-Hélene Catherine Torres, que atualmente faz doutorado em tradução literária na Bélgica, para o francês.
Numa entrevista feita por e-mail, Back diz que esse é o décimo roteiro de sua filmografia que está sendo editado em livro. E acrescenta que, sempre que possível, tenta associar seu cinema com a memória literária dele. Um filme começa no papel, a escritura do argumento e do roteiro, converte-se depois em celulóide e deve retornar ao papel, para a fruição de uma espécie de leitor/espectador. Considera isso fascinante - ler um filme antes de filmado ou antes de a gente assisti-lo.
Foi por meio do poeta carioca Paulo Henrique Britto, um cruzesousiano de primeira água, que chegou ao americano White, da Saint Lawrence University, de Nova York. Nas pesquisas para o roteiro, ficou sabendo das versões de Marie-Helene e de Costa, ambos de Florianópolis. Todos aceitaram o desafio e trabalharam um ano inteiro. E agora, graças ao patrocínio da Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina) e da Editora 7 Letras, do Rio, pois não havia previsão orçamentária dentro da produção do filme, o roteiro tetralíngue de Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro virou um livro de quase 300 páginas, um projeto inédito no cinema brasileiro e na nossa literatura, conta.
Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro (The Banished Poet, El Poeta Proscrito, Le Poete Banni). Roteiro de Sylvio Back. Editora 7 Letras.


