Roteiro de ''A Vida é Bela'' é lançado no Brasil
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quarta-feira, 14 de abril de 1999
Humberto Saccomandi Agência Folha 
Para que serve um roteiro depois que o filme já está nas telas? Essa é uma boa pergunta para quem se deparar com o roteiro de A Vida É Bela, escrito pelo diretor Roberto Benigni e por Vincenzo Cerami, que a Companhia das Letras está lançando no Brasil.
Um roteiro é apenas uma imprecisa projeção do que um filme pode vir a ser. Um bom texto não significa necessariamente um bom filme. Dê o mesmo roteiro a dois diretores e teremos dois filmes bem diferentes. O roteiro é uma peça técnica, não literária. É um suporte inicial ao qual numerosas contribuições serão acrescentadas. E ninguém se notabilizou até hoje por publicar roteiros (diferentemente de peças de teatro), embora haja grandes roteiristas.
Bom, então um roteiro não serve para nada? Não é bem assim. Permite, por exemplo, estudar o método de trabalho de cada diretor. Para Glauber Rocha, por exemplo, o roteiro era uma idéia. Muito do trabalho criativo se decidia no set de filmagem.
Outros, como o sueco Ingmar Bergman, não conseguem iniciar o trabalho sem um roteiro detalhado, fechado, sem saber exatamente onde a câmera vai estar em cada cena. Mel Brooks dizia que se uma coisa não estava no roteiro, não estaria no filme.
O roteiro de A Vida É Bela é bastante descritivo na narrativa, mas tecnicamente pouco preciso (não traz posição de câmera, cortes etc.). Curioso em se tratando de um comediante como Benigni, que transmite a imagem de um vulcão de espontaneidade. Era de se esperar o contrário: improvisação na movimentação e nos diálogos e um detalhamento técnico maior. Mostra, porém, que Benigni domina a direção. Mas um roteiro não pode evocar as emoções da obra final. Não transmite o olhar de um Carlitos, por exemplo.
Benigni acrescentou uma narrativa em off, no final, que não consta do roteiro original. É quando vemos o menino GiosuS abraçado à mãe. Sua voz, adulta, diz que esta é a história do sacrifício de seu pai. Uma alteração (e não houve muitas) numa fase importantíssima, na conclusão do filme. Por quê? Para agradar ao adocicado público americano, como querem os detratores de A Vida É Bela? Para dar um último verniz emotivo, bem ao gosto italiano, na linha dos irmãos Taviani, conterrâneos toscanos de Benigni?
Só ele poderá explicar.
A quem possa interessar, a apresentação do livro Benigni trata de muitas das críticas que estão sendo feitas ao filme. É só conferir.


