Rota até o deserto
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de setembro de 1998
Agência Estado 
Ela é conhecida por uma sigla: P-31. Merecia nome mais inspirador. Essa estrada é de sonhos, que só o concreto e o calor podem fazer crer que é real. Fica em Marrakesh, na região central do Marrocos. Uma série de desconfortos que já acompanharam qualquer viajante até aqui insinua a pergunta: vale a pena pegar a estrada que sai de Marrakesh, atravessa o Grande Atlas e chega ao Deserto do Saara, em Ouarzazate?
É difícil, quase impossível, dizer não em um país árabe, onde a barganha faz parte da cultura. Um não é entendido como argumento na complicada arte de negociar. Guias e agências fantasmas surgem aos montes (e quem vai duvidar deles?) nas recepções dos hotéis e pelas ruas da cidade sempre com as melhores ofertas. Poucas coisas no Marrocos têm ares oficiais. Reina a informalidade. O jeito é ativar o bom humor e usar bom senso. Geralmente os guias oferecem a alimentação e a condução, em carro alugado. Ir sozinho pode significar grandes dores de cabeça. Uma exaustiva ou divertida negociação depois, o único caminho é encarar a P-31.
Marrakesh está localizada em uma planície semi-árida, algumas vezes interrompida por extensos palmeirais e áreas de agricultura. Logo no horizonte, descortina-se a cordilheira do Grande Atlas, que funciona como barreira natural, segurando o calor e secura do Saara, que vem adiante. O ponto mais alto, o monte Jbel Toubkal, tem mais de 4 mil metros de altitude. No inverno, o Grande Atlas fica coberto de neve. Irônico contraste em uma região pré-saariana.
A carreteira que leva ao deserto atravessa as montanhas. São tão diferentes os cenários nos quase 400 quilômetros que uma pequena cochilada pode significar uma perda visual incrível.
Até começar a cortar perigosamente as serras, a estrada passa por zonas rurais muito povoadas. Gente atravessando a pista o tempo todo, carroças, mulas e até camelos dificultam a vida do motorista. Já nas montanhas, a explosão humana dá lugar a um visual grandioso de dramáticos vales pedregosos e um ar cada vez mais seco e quente. Praticamente os únicos sinais de presença humana são vendedores de pedras preciosas, fósseis e iguanas na beira da estrada. As montanhas são terras do povo bérbere, que cultiva uma cultura diversa da árabe com língua e hábitos próprios.
Depois de algumas horas serpenteando vertiginosos vales, abruptamente o ar torna-se tão quente que o vento chega a queimar. É o sinal que estamos chegando ao deserto. As grandes montanhas foram finalmente vencidas. Em frente, um imenso platô e uma grande solidão.
A partir de agora, viajar sem um galão de água fresca à vista pode ser arriscado. Os guias recomendam quatro litros por dia por pessoa. Um pouco mais não é exagero.
As aglomerações humanas surgem escassas na beira de riachos que lutam para não secar. São os chamados kasbahs, cidades fortificadas antigas. Apesar do calor que desanima sair do carro, pelo menos uma parada em um kasbah é fundamental.
Seguramente, o mais famoso é At Benhaddou, próximo à cidade de Ouarzazate. Já foi cenário de nada menos que três superproduções hollywoodianas: Lawrence da Arábia, A Jóia do Nilo e Jesus de Nazaré. Por conta disso e por ter sido tombado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, o kasbah foi totalmente restaurado. Muito pouca gente mora ali, quase todos por conta do turismo. Alugam camelos para passeios e vendem artesanato.
At Benhaddou acaba sendo apenas um solitário ponto de passagem no caminho de Ouarzazate e Zagora, mais à frente. Ouarzazate, 30 quilômetros depois, e Zagora, cerca de 130, não têm atrativo especial. Mas são pontos de partida para expedições pelo deserto. Especialmente bonita é a viagem entre as duas cidades, à beira de um rio no meio de um fértil vale, uma ilha na grande secura do deserto.
Zagora é uma das últimas paragens com boa estrutura turística antes do nada. É aqui que os viajantes trocam o carro pelo camelo quando a tarde vem e começa a esfriar, em direção a uma tenda.
Tagine, chá de menta, o uísque do deserto, e um cigarrinho especial fecham um dia de impressões fortes ao som dos berberes, que apesar da aparência ameaçadora, são curiosos, gostam de conversar (quando há uma língua em comum) e cantar para os forasteiros. A não ser que você seja uma mulher viajando sozinha, relaxe!


