É com despretensão e um sorriso no rosto que Felipe Camargo fala sobre a proximidade de seus 25 anos de carreira na televisão - iniciada em ''Anos Dourados'', de 1986. ''Sério? Tem tudo isso mesmo?'', espanta-se. Para Felipe, muito além de novas formas de interpretação e bons papéis, a melhor lição em todos esses anos foi entender como funciona as oscilações da carreira de ator. ''Aprendi a lidar com as vaidades da profissão e encarar qualquer papel com paixão. Uma hora surge um surpreendente, como é o caso do Petrus'', destaca, referindo-se ao seu personagem em ''Cordel Encantado'', atual novela das seis, da Globo.
Na trama de Thelma Guedes e Duca Rachid, o ator é Petrus, um duque que foi enganado pela esposa, a ambiciosa Úrsula, de Débora Bloch, que o prendeu numa masmorra com uma máscara de ferro no rosto. Só depois de 20 anos, o injustiçado duque consegue se libertar e chegar à cidade de Brogodó para se vingar da ex-mulher. ''Ele não é um cara maldoso. Só quer fazer justiça'', ressalta. Em sua chegada ao sertão brasileiro, o personagem é auxiliado pelo casal Florinda e Zenóbio, de Emanuelle Araújo e Guilherme Fontes, que o ajudam a se livrar da máscara. No entanto, da convivência com a mulher do novo amigo surge uma paixão. ''É um conflito muito rico. Ele é um cara traumatizado, que acaba de voltar à vida. Mas acaba se envolvendo com a mulher do cara que lhe devolveu a liberdade'', explica.
Este ano você completa 25 anos de televisão. Entre altos e baixos, o que o instiga a aceitar novos trabalhos e construir novos personagens?
Me deixo levar pelas oportunidades. Em todos esses anos, os projetos mais me escolheram do que eu os escolhi. A prova maior disso é que um dos últimos personagens importantes que fiz, o Dante de ''Som & Fúria'', chegou através de um convite do Fernando Meirelles. Não liguei para o diretor pedindo emprego ou uma chance, não foi algo que eu fui atrás. Quando surgiu o convite, só de ter a oportunidade de trabalhar com ele, eu já fiquei a fim. Ainda mais quando ele falou que era um protagonista. Não tive nem o que dizer, aceitei na hora e adorei interpretar o Dante.
A série ''Som & Fúria'' marcou sua volta à condição de protagonista, função desempenhada em sua estreia, na minissérie ''Anos Dourados'', de 1986. Como você lidou com a falta de convites para papéis de maior destaque?
Senti essa dificuldade na tevê. Mesmo sem aparecer muito em nível nacional, consegui fazer coisas das quais tenho muito orgulho no teatro e no cinema, como o espetáculo ''Boca de Ouro'', do Nelson Rodrigues, e o filme ''Jogo Subterrâneo''. Fui tido como maluco durante um bom tempo, assim como o Dante era reconhecido como louco pelos amigos e colegas de trabalho. Teve uma metalinguagem aí. Eu nunca saí da minha profissão, fiz muitas novelas ao longo da carreira, mas foi minha volta à Globo encabeçando um elenco. Por conta disso, até hoje a série é muito representativa para mim. A profissão de ator tem a possibilidade de exorcizar alguns sentimentos e frustrações e foi nesse trabalho que tive a chance de deixar para trás momentos pesados da minha vida pessoal e profissional.
Quais sentimentos e frustrações você conseguiu superar ao longo deste trabalho?
Basicamente, eu vi que as boas oportunidades vêm e vão. Não fico mais angustiado com isso. Perceber como oscila esse mecanismo me fez bem. Algumas vezes eu lutei tanto para fazer alguma coisa, principalmente no teatro, onde a gente é mais dono do trabalho, e o resultado não alcançou minhas expectativas. No entanto, quando as coisas surgem de maneira inesperada, elas vêm muito mais de acordo com o momento que estou passando, ou que me livrei. Mas que ainda é necessário trabalhar na minha cabeça, no meu emocional. Alguns personagem servem para digerir muitas situações e me fazer compreender melhor a vida.
Depois da série você trabalhou em ''Tempos Modernos'', novela das sete que não teve bons resultados de audiência. Foi difícil encarar um dos personagens principais em uma trama que não dava o retorno esperado?
Eu acho que a gente está sempre sujeito a viver os dois lados da moeda. Procuro fazer o meu trabalho da melhor maneira possível. Eu adorava o Portinho, de ''Tempos Modernos'', e até recebi alguns elogios por ele. Tento fazer meu trabalho da melhor forma onde eu estiver, pois sou eu quem está ali, é a minha atuação e a minha imagem. Então quando a novela não está dando audiência, não me interessa muito. Não é uma responsabilidade minha. A minha função é fazer as cenas da melhor forma, tentar resolver aquela cena e sentir prazer com o trabalho. E acho que isso são circunstâncias, a novela tinha qualidade em vários aspectos, uma boa direção, elenco bacana, mas não teve o apelo popular necessário.
Você saiu de uma trama de tintas futuristas, e agora integra o elenco de ''Cordel Encantado'', uma história lúdica e de época. É bom variar os estilos?
Sem dúvida. Mas o que me chama mais atenção em ''Cordel Encantado'' é que é um tipo de dramaturgia pouco recorrente na televisão brasileira. Muitas novelas de época já foram produzidas, mas essa tem tantas referências interessantes que acaba tendo ousadia no estilo. E o melhor disso é que o público está embarcando nessa história. Todos os detalhes técnicos são um escândalo. Essa novela é muito bem feita, mas ela também tem uma história boa, que eu acho que é o grande ponto de partida, principalmente na televisão, pois a telenovela vive principalmente da qualidade da trama. Se você não tem uma história interessante, você pode ter a melhor equipe e mesmo assim não vai conseguir pegar o telespectador.
A história de seu personagem foi inspirada em ''O Homem da Máscara de Ferro'', de Alexandre Dumas. Se o principal da atuação são as feições do ator. Como foi passar boa parte dos capítulos com o rosto coberto?
No início, nem a máscara podia aparecer, era só um homem encapuzado. Uma coisa que eu percebi usando o acessório é que o meu equilíbrio ficava afetado. Pois ela tampava os meus ouvidos, e o ouvido é o responsável pelo equilíbrio. Quando você tem uma labirintite, a primeira coisa que você perde é a estabilidade dos movimentos. Então, esse personagem ficou com o equilíbrio meio defasado, o Luiz Fernando Guimarães até reparou que quando eu estava de máscara, andava meio de lado, meio bambo. Foi algo inconsciente e que ficou bem legal nas cenas.
O peso da máscara ajudou na composição do Petrus?
Bastante. Mas ainda bem que não era feita de ferro, mas sim de latão. Pesava uns três quilos, acredito que se fosse ferro deveria pesar de seis a oito quilos. Durante as gravações com ela, o som que vinha era algo meio metalizado, as vozes se confundiam, se perdiam, a minha voz também ficava estranha, ouvia minha respiração e tinha um raio de visão muito limitado. Eram apenas duas frestas para os olhos, não tinha como coçar nada no meu rosto. Quando meu nariz coçava eu ficava maluco. Era muito aflitivo. A máscara ajudou muito na construção dos dilemas do personagem. A questão da fala também, ele quase não falava no início e aos poucos foi soltando a voz.
Você só apareceu como Petrus no primeiro capítulo. Deu para sentir a reação do público quando o personagem tirou a máscara?
Com certeza! As pessoas que não assistiram ao primeiro capítulo ficaram meio perdidas e sem saber que eu ainda estava na novela. Quando eu tirei a máscara e a barba, fui abordado por pessoas na rua dizendo que não sabiam que era eu o ator por trás do homem encapuzado.
''Cordel Encantado'' é uma aposta da Globo em tramas mais curtas. No entanto, com a audiência ascendente, ganhou mais duas semanas de exibição. Do ponto de vista do ator, é melhor trabalhar em folhetins de menor duração?
Criar tramas interessantes é difícil, até o elenco se cansa. O legal de novelas mais curtas é que isso pode evitar a criação de ''barrigas'', aquelas histórias sem nexo, com cenas em que nada acontece, algo muito comum nos folhetins. No caso de ''Cordel Encantado'', a Thelma e a Duca conseguem colocar tramas interessantes uma atrás da outra. É uma novela que não para de acontecer coisas, que não enrola o telespectador. No caso do ator, a agilidade das histórias é bem vista. Porém, a gente está sempre em ritmo frenético de gravações, e fazer as cenas desta novela não é algo tão simples.
Quais são as dificuldades?
Para a coisa ficar bem feita, exige muito trabalho. A iluminação dessa novela tem todo um cuidado. Não é uma luz qualquer, como acender 500 refletores, tudo fica claro e sai gravando. Ela é toda recortada, o mais próximo possível da realidade. O que cria uma ligação com o Brasil, com o sertão, e também do reino europeu de Seráfia. Gravamos na França, no inverno, aquela coisa toda nebulosa, romântica, diferente. Além disso, são penteados, figurinos, cenários, tudo é muito elaborado. A equipe está produzindo cinema na televisão.
''Cordel Encantado'' - Globo - Segunda a sábado, às 18 h.

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