Rosana, a cidade das hidrelétricas
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terça-feira, 04 de maio de 2004
Valdir Sanches<br> Agência Estado 
Rosana, (SP) Rosana tinha tudo para dar errado, não fosse o fato de situar-se entre dois grandes rios. Está, por assim dizer, na esquina do Rio Paraná com o Paranapanema. O trem ia chegar, na década de 50 não chegou. O algodão, que parecia a salvação, teve seu auge e rápida decadência. Vieram as pastagens, e exauriram a terra. Então surgiram as hidrelétricas.
Duas hidrelétricas uma em cada rio. Começaram a ser construídas no mesmo ano, 1979. A de Rosana, no Rio Paranapanema, divisa com o Paraná; a de Porto Primavera, no Rio Paraná, divisa com Mato Grosso do Sul. As construtoras montaram seus canteiros de obra e o lugar começou a ferver.
Luiz Fernando Leão, um construtor de barragens, um barrageiro, que abriu valeta e descarregou muito caminhão, mudou de ramo. Abriu um pequeno restaurante e um boteco ''para vender pinga''. Na cidade havia nove mil barrageiros. ''Eu vendia de quatro a cinco caixas de pinga por dia'', lembra. Hoje é dono do melhor hotel do lugar.
Só que essa agitação toda acontecia no distrito de Porto Primavera. A sede do município Rosana, a 12 quilômetros continuava devagar. Paulo Velasco chegou a Rosana em 1956 e transportou muito passageiro em um ônibus jardineira. A jardineira corria pelo leito aberto para os trilhos que não vieram. Paulo trabalhou em uma porção de coisas e hoje é funcionário da prefeitura. Mora numa casa simples, com reboco sem pintar.
A sede da prefeitura fica em Rosana, que tem 1,5 quilômetro quadrado e 6.197 moradores. Mas Porto Primavera possui um subprefeito um diretor-administrativo. Sua área é muito maior, 8,5 quilômetros quadrados. A população, o dobro: 13.097. E tudo bancos, correio, fórum, cartórios fica no distrito.
Foi em Porto Primavera que a Cesp, Companhia Energética de São Paulo, construiu uma vila para abrigar os empregados que ergueriam as hidrelétricas. Surgiram, em pouco tempo, 4.200 casas e o hospital. Os anos correram. As hidrelétricas, com suas barragens, que retêm os rios e formam grandes lagos, foram ficando prontas.
A de Rosana teve a última das quatro turbinas instalada em 1996. Porto Primavera, muito maior, teve períodos de estagnação. Mas na virada deste século estava pronta. A 14 turbina (a previsão é de 16) começou a operar em 2000. Em suma, não havia mais concreto a fazer. Os barrageiros começaram a mudar-se.
Com eles, foi-se o vigor econômico do lugar. As empresas que construíam as hidrelétricas pagavam um bom ISS, o Imposto sobre Serviços. Sem elas, a arrecadação ''tem diminuído de forma drástica'', no dizer de Valter Marelli, o diretor-administrativo de Porto Primavera. Um sinal eloquente dos novos tempos: o salário dos vereadores foi reduzido de R$ 4.500 para R$ 1.680.
A Cesp começou a vender as casas da vila, de preferência para funcionários. Muitas ficaram vazias. Umas tantas sofreram invasão. Há dois anos, as casas restantes passaram para a prefeitura. A Cesp ainda banca a coleta do lixo e a jardinagem (há áreas verdes bem cuidadas) de Porto Primavera e ajuda a manter o hospital.
Mas ''o custo social é muito grande'', diz Marelli. Em Rosana, surgiram bolsões onde vivem barrageiros desempregados. A procura pelo hospital aumentou, com clientela vinda até dos vizinhos Paraná e Mato Grosso do Sul.
Qual poderá ser a saída para este lugar? Mais uma vez, os rios. Rosana e Porto Primavera têm cada qual uma praia no Paranazão, o Rio Paraná. A de Rosana está numa pequena enseada. O sol se põe na margem oposta e oferece momentos belíssimos. Uma linha de pequenas bóias demarca, no rio limpo, a área segura para os banhistas.
Em 2000, uma rodovia foi aberta sobre a barragem da Hidrelétrica de Porto Primavera. Aposentou a balsa que fazia a travessia do Rio Paraná. Isto teve um lado ruim: criou um novo corredor para o tráfico de drogas. Mas trouxe um grande benefício: turistas.
O município de Rosana gaba-se de ser o primeiro do País a criar um zoneamento ambiental (novas casas e loteamentos levarão em conta o verde). É verdade que ainda depende de aprovação em outras esferas. No momento está com o promotor do Meio Ambiente. Rosana e Porto Primavera ainda têm boas porções de mata nativa, inclusive nas margens dos rios.


