Rosa, realista e repórter
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de novembro de 1997
Marcos Cesar Gouvea 
Londrina
Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
João Guimarães Rosa: a veia de repórter pulsa em Com o Vaqueiro MarianoJoão Guimarães Rosa morreu do coração há 30 anos. Morreu prematuramente aos 59 anos, a 19 de novembro de 1967, três dias após assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, uma fato, em si, inútil, que protelou por quatro anos. Tinha sido eleito por unanimidade para a vaga de João Neves da Fontoura. Seu primeiro livro, Sagarana, foi publicado apenas em 1946, quando o autor tinha 38 anos.
Já se falou muito no Guimarães Rosa revolucionário da linguagem, no ficcionista fantástico, no homem que fez o sertão virar mundo. Também soube, como ninguém, falar do sertanejo, mostrando seu universo, seu desapego pelo mundo, seu viver desinteressado. O desapego que torna vaqueiros e bichos superiores. A ficção, este estratagema para preencher os vazios pertubadores da realidade, é a grande obra de Guimarães Rosa, que culminou com o universal Grande Sertão: Veredas.
Mas há muito de realismo e reportagem nos seus escritos, embora detestasse entrevistas e tivesse horror a repórteres (1): As entrevistas são trocas de palavras em que um formula ao outro perguntas cujas respostas já conhece de antemão. Apesar de tudo, andava com um caderninho anotando os casos que ouvia.
Em 29 de julho de 1967, conta Paulo Rónai (2), Guimarães Rosa publicou seu último artigo, Rôgo e Aceno, no jornal Pulso, do Rio de Janeiro. Ele anunciava a publicação de Tutaméia, de contos publicados naquele mesmo periódico, e da suspensão provisória de sua colaboração, para trabalhar em outro livro. Gravam-me compromissos excessivos e o tempo que me resta preciso de empregá-lo, sem mais adiamento possível, na terminação de outro livro. Outro. Mas este, de novelas e contos longos. Do jeito, não conseguiria num saco fazer caber todos os proveitos.
ReproduçãoUm dos índices provisórios de Estas Estórias, manuscrito do autor, com sugestões para o ilustrador
Estas Estórias Os esboços deste volume anunciado foram encontrados depois de sua morte. Estas Estórias, publicado postumamente, abrangeria oito novelas longas e a entrevista-retrato Com o Vaqueiro Mariano. Esta foi publicada pela primeira vez no Correio da Manhã de 25 de novembro de 1947, e, pela segunda vez, em apenas 110 exemplares fora de comércio das Edições Hipocampo, em 1952.
No entremeio Com o Vaqueiro Mariano, a veia de repórter de João Guimarães Rosa pulsava como o coração de um maçarico migrando:
Em julho, na Nhecolândia, Pantanal de Mato Grosso, encontrei um vaqueiro que reunia em si, em qualidade e cor, quase tudo o que a literatura empresta esparso aos vaqueiros principais. Típico, e não um herói, nenhum. Era tão de carne-e-osso, que nele não poderia empessoar-se o cediço e fácil da pequena lenda...
Em três partes o leitor é levado pelo entrevistado José Mariano da Silva, amigo do autor, às aventuras rotineiras do boiadeiros do Pantanal: Aqui, o gado é que cria a gente... O universo dos bois, domésticos ou bravios. Os sentimentos dos bois, que amam, choram e têm raiva. O fogo na invernada e o medo da morte, partilhado pelo homem, pela boiada e animais selvagens, irmanados na mesma tragédia.
De forma linear a história é contada, num mundo plano diverso das gerais, mas com os mesmos bois e gente. A conversa eterna com a morte, mas também o culto à vida. Vida simples, que escorre natural. Um encantamento já em vida de gente e de bicho.
Cenário A sensibilidade de Guimarães Rosa constrói o cenário magnífico para Mariano, sem querer, reinar. A noite, para lá da minha janela, tinha hasteado estrelas, papel e pano; mas, durante, esfolhando as horas delas, soprou todo o sueste, que arrasta icebergs de ar. Sofri-o de repente, quando me levantei, às quatro, para ver o Pantanal em madrugada e manhã.
Na lida do curral a segunda parte da história, onde o vaqueiro explica a vida que o autor, mais cedo, já adivinha. Abriguei-me a um ângulo de cerca, e os bezerros estreitam seu clamor. São sons que abrangem tudo: ronflos, grunhos, arruos, balidos, gatimios, fungos de cuíca, semi-ornejos, uivos doentes, cavos soluços pneumáticos. Dói na gente o desamparo deles, meninos grandalhões, profissionalmente expulsos do leite e calor que lhes pertence. Suplicam ou insistem, exigem, dizem coisas. Uns despregam um muo tremido, berberram mais que as vacas. Essas estão bem longe, acolá dos grandes currais. Só a espaços respondem. Donde a onde, muge uma.
Invernada, boiada e onça. Água, céu, multidão de aves. Um repórter naturalista constrói outra pequena obra prima com o amigo boiadeiro, descrevendo cada planta e animal na terceira e última parte de Com o Vaqueiro Mariano. Um realismo que acalma a angústia dos urbanos. Só às nove da manhã pudemos sair para o campo, onde Mariano ia mostrar-me, de verdade, como é que se tratam, sob o céu, bois e vaqueiros. Para nós servia qualquer direção, porque o Pantanal é um mundo e cada fazenda um centro. Tudo era a terra sem altos, dada às cheias, e o redondo do capinzal, que os rebanhos povoam. Mugiam à nossa porta, ladeavam nosso caminho, pintavam o nosso horizonte. Cavalgávamos para dentro do País do Boi.


