Rosa Passos mostra suas composições no CD Morada do Samba
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quarta-feira, 01 de dezembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 01(AE) - Em quase dez anos de carreira irretocável, Rosa Passos produziu discos que dignificam a década - são sua melhor trilha sonora, ao lado do pouco de Tons e Chicos e Joões que tivemos e andamos perdendo. Sabíamos, no entanto, de Rosa, mais a intérprete cheia de bossa, violonista - baiana - na escola joãogilbertiana com um passo à frente e a feminilidade que torna tão mais agradável a audição.
Rosa é também compositora e queria mostrar isso. E é o que mostra em "Morada do Samba", seu sétimo disco, lançamento Lumiar, co-produção da cantora e de Almir Chediak, dono da gravadora. Das 13 faixas, Rosa assina 8. Divide créditos com Djavan, Dorival, Jobim. Não fica devendo a eles. Rosa alia delicadeza melódica a aguda percepção harmônica e traz à luz brilhante pérolas - quando o trombone de Roberto Marques soa sobre o violão de Lula Galvão e a vassourinha de Erivelton Silva na introdução de "Esmeraldas" (Rosa e Fernando de Oliveira), você tem a certeza de que está diante de um novo clássico.
Para tecer o bordado sofisticado do repertório, Rosa Passos foi buscar seus autores de fé. Reinventa "Beiral", samba, de Djavan, no canto aspirado, de impecável afinação e incomparável balanço. Um desatento pode achar, à primeira vista, que Rosa Passos tem daquelas vozes muito pequenas - que afinação e balanço são sua força. Mas Rosa, rezando pela cartilha de João Gilberto, quando reduz a voz ao sussurro o faz como recurso estilístico, como quem lança a isca e puxa para perto o ouvinte. Os agudos de "Beiral" explicam tudo, para quem não havia, ainda, entendido.
Outra reinvenção é a do pouco conhecido "Retiro", de Paulinho da Viola, obra-prima que Rosa baixa para o universo da bossa nova, seu campo de domínio. Faz coisa semelhante com o Dorival Caymmi de Saudade da Bahia" e surge uma palavra batida (como a música pode parecer batida e Rosa a revela nova, fresca): malemolência. Um langor, um certo abandono marcam a interpretação (o piano brilhante de Fábio Torres capta o clima e
quando chega sua vez de solar, mimetiza o dengo da cantora). "Lá Vem a Baiana" é o outro Dorival. Completa o repertório de alheias "Calmaria", de Walmir Palma, que, por sinal, é parceiro de Rosa em "Morada do Samba", a música que dá título ao disco, e em "Primavera".
Embora more no Brasil - em Brasília, de onde não pensa em sair -, Rosa Passos está ampliando carreira internacional e virando referência do novo canto brasileiro, contraponto às porcarias nacionais e internacionais de mercado. Aqui, só se ouve Rosa Passos tendo o disco. Tenha-se o disco.


