As interpretações precisas, o rigor na escolha do repertório e os arranjos que misturam bossa nova com jazz transformaram Rosa Passos em uma pérola rara no vasto cenário da música popular brasileira. A cantora que constantemente é aclamada nos maiores palcos do mundo - e ainda não teve seu devido reconhecimento no Brasil - acaba de lançar novo CD, em que visita a obra de Djavan.
Lançado pela gravadora Universal Music, o tributo intitulado "Samba Dobrado" intercala grandes sucessos com faixas menos conhecidas do alagoano. Músicas como "Pétala", "Faltando um Pedaço", "Serrado" e "Capim", entre outras, ganharam a assinatura peculiaríssima de Rosa. A baiana incluiu ainda uma faixa extra composta por ela em parceria com Fernando de Oliveira em que homenageia Djavan saudando-o como "Doce Menestrel".
"Samba Dobrado" é o 17º álbum gravado por Rosa Passos. Em 2002, a cantora já havia abordado a obra de Djavan no disco "Azul", álbum também focado em músicas de João Bosco e Gilberto Gil. Em fase de montagem do roteiro que fará parte da nova turnê, Rosa planeja incluir outras músicas do alagoano como "Samurai", "Álibi" e "Açaí" que ela tem interpretado ao longo da carreira iniciada em Salvador, em 1979.
Em entrevista à FOLHA por e-mail, a baiana conhecida como João Gilberto de saias fala sobre o novo trabalho, conquistas e planos para o futuro.

Qual foi o critério adotado para a escolha do repertório do CD Samba Dobrado?
Para mim não foi tão fácil escolher o repertório porque a obra de Djavan é maravilhosa. Então escolhi os clássicos e aquelas músicas com as quais tinha uma grande afinidade rítmica e melódica.

Quais características mais a atraem nas músicas compostas por Djavan?
A forma como ele conduz a música ritmada com a letra. Pra mim é uma maneira singular e genial de compôr.

O novo show terá apenas composições dele? Quais músicas serão acrescentadas ao repertório do disco?
Sim. Dentro do repertório do show tem outras músicas dele que gravei em outros CDs, como por exemplo "A ilha", "Álibi", "Samurai", "Açaí" e outras...

Tem previsão de voltar a se apresentar em Londrina ou outras cidades do Paraná?
Ainda estou fechando a minha agenda para essa turnê e pretendo colocar Londrina no circuito. Todas as vezes que me apresentei aí, foi maravilhoso!

Você imprime uma assinatura muito pessoal nas canções que interpreta, fazendo com que elas pareçam suas. Seu canto é intuitivo ou existe um planejamento técnico para trazer as canções para o seu universo particular?
Sempre digo que sou uma privilegiada musicalmente! Deus colocou a música no meu colo me dando a responsabilidade de fazer tudo direito e com amor e sinceridade!
Faço música do coração sempre preocupada com a estética, dicção, respiração, letra, melodia e harmonia. Reúno essas principais ferramentas e coloco o sentimento, a intuição e a minha assinatura nas canções. Mas para ter essa consciência musical foi preciso me empenhar anos ouvindo os grandes intérpretes e os instrumentistas, estudando e me reciclar sempre.

Como você se define como cantora?
Hoje, com a maturidade e a experiência que conquistei, sinto que o meu trabalho se tornou referência para cantores e músicos jovens que querem fazer música de verdade. Como cantora, da mesma maneira que sou cuidadosa com as minhas composições - porque sou compositora e instrumentista também -, me sinto coautora das canções de outros compositores que admiro e as tomo como minhas também.

Você costuma fazer mais shows no Brasil ou no exterior? A quais países tem levado seu trabalho?
Tenho dividido a minha agenda entre o Brasil e o exterior. Este ano só me concentrei na América Latina. Em 2014, vamos para os Estados Unidos e Europa.

Fica incomodada com o fato de ser mais valorizada no exterior?
Não! Sou uma artista extremamente feliz e realizada lá fora e aqui dentro do meu país.

É complicado sobreviver de música fora do mainstream ?
Eu não sobrevivo exclusivamente de música. Tenho uma vida financeira estabilizada com outras fontes de renda. Mas acredito que sempre haverá público para o trabalho musical que cuide da estética e da qualidade.

Quais cantores e cantoras você admira e costuma ouvir?
Elis Regina é a minha cantora brasileira preferida. Escuto diariamente as divas do jazz porque elas são as minhas mestras, a minha escola e a minha inspiração. Estou falando de cantoras como Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Nancy Wilson, Etta James, Sarah Vaughan, Bete Carter, Dinah Washington, Diane Shuur, Shirley Horn, Carmen McRae e Nina Simone. Das vozes masculinas, ouço muito Johnny Hartman, Johnny Mathis, Nat King Cole, Chet Baker, Frank Sinatra, João Gilberto e Djavan. Como sou uma compositora e instrumentista, acrescento no meu dia a dia musical os grandes músicos do Jazz. Adoro Jazz instrumental e ouço muito estudando, como Ron Carter, Bill Evans, Milles Davis e Duke Ellington.

Você costuma prestigiar grandes compositores da MPB. Algum nome da nova geração tem chamado sua atenção?
No momento não penso em ninguém.

Quais foram suas maiores conquistas na carreira? Algum sonho ainda a ser realizado?
As maiores conquistas foram receber o título "Doutora Honoris Causa" pelo Berklee College of Music nos Estados Unidos e fazer uma apresentação solo com violão no Carnegie Hall. O meu sonho a ser realizado é gravar um disco com a Orquestra de Los Angeles e arranjos do Maestro Jorge Callandrelli.

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